“Gosto muito de como vivem os setubalenses e da maneira como sentem o Vitória”

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Na rubrica “Vidas que inspiram o Desporto”, promovida pelo município sadino, o treinador espanhol confessou estar a ter uma experiência “extraordinária” em Setúbal e no Vitória.

 

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Que alterações lhe trouxe a pandemia da Covid-19?

Mudou tudo. A primeira coisa foi ficar muito longe da minha família, da minha mulher e dos meus amigos, portanto toda a comunicação com eles, há já quase dois meses, foi feita por telemóvel e videochamadas. A forma de interagir com as pessoas mudou radicalmente com o staff técnico e os jogadores. Antes podia falar, abraçar e olhar nos olhos, agora tem de ser por telemóvel. O contacto mais físico mudou a 100%. Também não podemos fazer a nossa vida normal, o plano de trabalho… mudou tudo, não só para mim mas para toda a sociedade.

 

É mais difícil para os latinos…

É difícil quando uma pessoa fica privada da liberdade. A nível emocional é uma mudança muito importante. Acho que a vida mudou e agora ficamos numa situação muito particular. Agora parece que podemos começar um bocadinho a fazer certas coisas, mas temos de ter muito cuidado e muita protecção porque ainda há um perigo extremo.

 

É treinador, mas não pode trabalhar normalmente no relvado. Como foi a adaptação a essa nova realidade?

Em primeiro lugar, estou muito satisfeito com a receptividade dos jogadores. Acho que se fez um grande trabalho com eles, o staff técnico e a direcção. Dentro das possibilidades do clube tentámos arranjar bicicletas e material desportivo de força para os jogadores poderem continuar a trabalhar em casa. É totalmente diferente, é outro desporto. Afinal, falamos de um desporto colectivo que é praticado ao ar livre. Ficar em casa, por muito que faças bicicleta e trabalho de força, é totalmente diferente.

 

Tudo indica que esta época vai terminar praticamente colado à próxima. Está preparado para não ter férias?

Sim. Par mim, o mais importante é a saúde. Estamos ainda num período de incerteza absoluta. Não depende de nós, mas de como evolui o vírus. Graças a Deus, em Portugal, as direcções e o Governo fizeram as coisas extremamente bem. Em países como o meu, Espanha, ou Itália as pessoas olham para Portugal como um exemplo. A população foi muito responsável e é motivo para se ficar orgulhoso de todas as pessoas. Estamos numa fase em que parece que a competição se vai reiniciar, mas vamos ver porque ainda há incertezas.

 

Há quem diga que depois de tudo isto passar vamos ser pessoas diferentes. Qual a sua opinião?

Tenho muitas dúvidas de que existam tantas mudanças a nível de condutas humanas. As coisas não corriam bem, especulou-se muito com material sanitário e com muitas situações. Não podemos ser hipócritas. É muito importante sermos sinceros e frontais e que fiquemos todos um bocadinho mais humanos e sermos capazes de olhar para as pessoas que temos perto, algo que não se faz no dia-a-dia, e para quem está longe. Gostaria que fosse assim, mas o que se vê em alguns sítios é que se dá prioridade às questões económicas em vez da saúde. Por isso, não tenho certeza absoluta de que a humanidade vá mudar tanto a maneira como procede. Temos normalmente a tendência de pensar que é importante que não aconteça a nós. Desta vez aconteceu em todo o mundo. Antes desta pandemia já havia pessoas a morrer por outros vírus e de fome, mas parece que por ser muito longe não é a mesma coisa. Gostaria que as coisas mudassem, mas não tenho a certeza de que a humanidade vá mudar tanto como alguns dizem.

 

«É difícil arranjar um sítio em Setúbal em que o peixe não seja bom»

 

Está em Setúbal e no Vitória desde Novembro. Como está a ser a experiência?

Extraordinária. Estou muito contente. Viemos para uma equipa histórica numa situação difícil, perto dos lugares de descida. Graças a Deus correu tudo muito bem a nível de jogo e de resultados. Antes da pandemia, estávamos numa situação boa, depois de termos conseguido um bom resultado com o Benfica (1-1). É preciso lembrar que falamos da equipa com o orçamento mais baixo de toda a Liga. Essa é a realidade. No plano pessoal, gosto muito do clube, identifico-me muito com a sua história, os adeptos e a sua paixão. Na rua as pessoas são muito apaixonadas e senti o seu respeito. Falamos de uma cidade extraordinária. A minha mulher está enamorada por esta cidade. Tem muito encanto, há o mar perto e tem potencialidades incríveis. Depois há as pessoas, que são muito respeitosas.

 

Sente-se perfeitamente integrado em Setúbal?

Quando treino uma equipa gosto muito de morar no centro das cidades porque gosto de sentir as pessoas e a maneira como vivem. Gosto muito de como vivem os setubalenses e da maneira como sentem o Vitória. Identifico-me muito. Sinto-me perfeitamente integrado.

 

O Vitória é um clube histórico. Acha que poderá um dia ter condições para ser semelhante às equipas dos anos de 1960 e 1970 que dava cartas na Europa ou essa ideia é apenas um sonho?

Não é um sonho. O Vitória tem muitas condições para ser no futuro uma equipa importante. O futebol evoluiu muito, mas se ficas parado fica difícil. Setúbal é uma cidade incrível e existe um sentimento de pertença à cidade e ao clube extraordinários. Em Portugal, falamos de um dos adeptos como mais paixão pela sua equipa. Há a história, mas depois é fundamental melhorar as infraestruturas: ter um centro de treinos e um estádio mais cómodo onde as pessoas possas ir com as crianças. Além disto, o orçamento também é importante e não é só para a equipa principal, mas também para os escalões de formação. Falamos de uma zona onde há muito talento e é preciso ajudar para fomentá-lo para poderem jogar na primeira equipa. Se se melhorar as infraestruturas e o orçamento, estou certo que o Vitória tem condições para no futuro pensar noutros objectivos.

 

O que diz aos seus compatriotas sobre Setúbal?

Quando falo com os meus amigos e família sobre a cidade digo-lhes que é difícil arranjar um sítio em Setúbal em que o peixe não seja bom. Todo o mundo já conhece Setúbal, mas acho que tem muito mais dimensão do que aquela que as pessoas conhecem. Há uma qualidade de vida incrível, praias formidáveis, pessoas muito carinhosas. É uma cidade com muito encanto, com paisagens incríveis de montanha e de mar. Tem muitas possibilidades e acho que ainda tem muito mais para evoluir não apenas no futebol, mas como cidade. Gosto muito desta cidade.

 

Vai continuar no Vitória depois do campeonato terminar?

Vamos ver. Estou muito feliz aqui e sinto-me muito identificado com os adeptos e com a equipa e com a maneira de viver na cidade. Gosto muito do director desportivo, do team manager, do presidente e de todos os envolvidos no clube. Vamos ver o projecto que se quer fazer, os objectivos e as possibilidades a nível de infraestruturas, etc. Acho que agora devemos estar focados a 100% no presente, no dia-a-dia e em ver se a competição se realiza. Temos tempo de falar na época seguinte quando terminarmos esta.

 

Sadinos e Ghilas rescindem contrato

O Vitória anunciou ontem a rescisão de contrato com o avançado Ghilas. “A antecipação da cessação do vínculo foi formalizada por mútuo acordo e terá efeitos imediatos”, lê-se no comunicado publicado no ‘site’ oficial dos sadinos. O clube “agradece ao jogador o contributo que deu ao clube durante a presente época, desejando-lhe as melhores felicidades a nível pessoal e profissional”.

Recorde-se que o atacante franco-argelino, de 30 anos, tinha chegado a Setúbal em Setembro de 2019, altura em que tinha assinado um vínculo válido por duas temporadas. Ao serviço do Vitória, Ghilas participou em 19 partidas (15 no campeonato, duas na Taça de Portugal e duas na Taça da Liga) e fez cinco golos. Em Portugal, o jogador tinha antes representado o Moreirense (2011/12 e 2012/13) e o FC Porto (2014/15).

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