“O desporto é uma prática muito importante para as pessoas que não vêem”

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Invisual desde os oito anos, o fisioterapeuta gosta de praticar ciclismo, canoagem, equitação, xadrez e atletismo

 

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“O desporto é uma prática muito importante para as pessoas que não vêem, tanto em termos de desenvoltura espacial, de mecanismos de defesa e de desenvolvimento pessoal”, começa por contar José Mimoso, fisioterapeuta de profissão em Alcochete, a O SETUBALENSE. Invisual desde os oito anos, devido a um glaucoma, José Mimoso sempre fez questão de incluir a actividade física na sua vida. “É uma coisa que gosto de fazer. Gosto de praticar ciclismo, canoagem, equitação, xadrez e atletismo. Sinto que é uma coisa que me está na guelra”, revela, chegando, inclusive, a sagrar-se campeão nacional de xadrez e a integrar a selecção portuguesa de futebol para cegos.

Apesar de actualmente, aos 59 anos, não se dedicar tanto quanto gostaria à prática desportiva, por trabalhar a tempo inteiro na empresa que gere, a Clínica Fisiomimo, o fisioterapeuta afirma que tem como objectivo futuro “voltar a conseguir encaixar este importante hobby no dia-a-dia”.

Em busca de ultrapassar os obstáculos da vida

José Mimoso era apenas uma criança quando acabou por perder a visão, mas esta fase não o desmotivou a “querer ser alguém na vida”. “O difícil foi ter de aprender tudo de novo, mas nunca me fez diferença porque me sei adaptar rapidamente às situações”, revela. Foi, então, estudar para Lisboa, onde diz ter recomeçado pela segunda vez, local onde permaneceu até aos 17 anos, altura em que teve de escolher um curso superior. “Pensava que Direito fosse a minha vocação. A palavra fisioterapia não estava no meu vocabulário, mas quando chegou a altura senti que não era este o curso que queria porque exigia muita consulta e os cegos não tinham, em Portugal, apoios em termos de material”, afirma.

Surgiu, então, a oportunidade de frequentar o curso de fisioterapeuta na Universidade Autónoma de Madrid. Concorreu através da Organização Nacional de Cegos de Espanha, conseguindo ficar em primeiro no concurso de acesso. Neste momento José Mimoso percebeu que seria o curso ideal, por utilizar uma das suas valiosas ferramentas: as mãos. “Percebi que assim poderia começar a fazer algo que dependesse apenas de mim e isso era o mais importante. Cheguei a casa um dia e disse à minha mãe que ia. Apanhei o comboio no dia seguinte e fui, sozinho, também porque não via perspectivas de progredir em Portugal”, adianta.

Passados três anos regressa a Alcochete, onde a sua vida profissional viria a começar lentamente. “Regressei com pouco dinheiro e, por isso, arranquei com o negócio em casa da minha mãe. Passado um ano comprei um rés-do-chão e a partir daí comecei a desenvolver a empresa. Em 1998 abri a primeira clínica e na Fisiomimo colaboro desde 2007”, refere. Com todos estes obstáculos superados, o fisioterapeuta faz questão de sublinhar que “não é a cegueira que impede as pessoas de desenvolverem as actividades que gostam”, e aconselha “a todos os invisuais que não tenham medo, porque difícil é, mas é muito gratificante”. “Somos cegos mas temos muitas vantagens, temos é de as saber aproveitar e foi o que eu fiz. A palavra fundamental é a disciplina. O resto vem por acréscimo”, conclui.

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