90% dos alunos do Agrupamento da Trafaria sem computador

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Fotografia de Alex Gaspar

O terceiro período lectivo vai ser o grande teste ao ensino à distância, o problema é o acesso a meios informáticos

 

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O terceiro período deste ano lectivo começou ontem e continua com aulas à distância para os alunos do 1.º ao 12.º ano, ao mesmo tempo, os encarregados de educação mantém a preocupação com a oportunidade de acesso para todos a meios informáticos e ligação internet.

Um dos agrupamentos de escolas onde esta igualdade está muito aquém é o da Trafaria, em Almada, onde, por contas do Movimento Escolas Sem Amianto, “90% dos alunos não têm acesso a computador”. Para André Julião, coordenador deste movimento, que reúne várias associações de pais de Almada, este caso “é um espelho do muito que acontece no país” e, com base no Instituto Nacional de Estatística, acrescenta que, a nível nacional, “um em cada cinco estudantes não tem computador em casa”, enquanto que “quase 20% dos agregados familiares não tem acesso à internet”.

Foi nesta base que o movimento conjuntamente com um grupo de encarregados de educação e sindicatos, enviaram uma carta aberta ao Ministério da Educação onde recomenda que seja criado um “Programa Nacional de Transformação Digital na Educação”. O objectivo é o “acesso universal às tecnologias de informação e à Internet e o combate à iliteracia digital”.

Outro lado da questão é a preparação dos alunos, principalmente dos mais novos, para esta nova vida lectiva. Aliás, também para os pais que, literalmente de um dia para o outro, se viram chamados a quase ‘substituir’ os professores. “Foi criada uma grande pressão em cima das crianças e dos pais no fim do 2.º período lectivo”, comenta Jorge Duro, dos órgãos sociais da Federação Regional de Setúbal das Associações de Pais (FERSAP). Uma situação ainda mais “difícil de gerir” quando os pais estão em teletrabalho.

Agora com o início do terceiro, e último período deste ano lectivo, espera-se que a nova realidade de ensino funcione melhor. É essa a perspectiva de Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, que diz estar confiante que, entretanto, tenham sido corrigidos erros e colmatadas falhas. “Durante as férias, houve tempo para pensar em soluções, mas só agora vamos conseguir perceber no terreno se o que as escolas planearam foi o melhor”.

Que este novo normal das aulas corra pelo melhor é também o desejo de Orlando Serrano, presidente da FERSAP. “Os agrupamentos de escola debateram o uso de novas plataformas informáticas e adoptaram os programas à actual realidade; é um desafio para todos que só dentro de alguns dias vai ser possível avaliar”, comenta.

O facto é que “ninguém estava preparado para esta nova realidade”, acrescenta José Feliciano da Costa, presidente do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL), que não deixa de elogiar tanto alunos, como pais e os professores. Foi toda uma comunidade escolar que “teve a capacidade para se adaptar às aulas não presenciais”.
E, no caso dos professores, “não foi fácil motivar os alunos, quando não tem formação adequada para o ensino à distância”. Seja como for, “as escolas não podem parar”, apesar de se “perder a percepção entre professor e alunos em aula”.

São diferenças que passam também pela transmissão de matérias de ensino. Para José Feliciano da Costa os programas lectivos “têm de ser ajustados”, sendo que neste último período “não devem ser leccionados novos conteúdos”, mas sim “aproveitar para consolidar os conhecimentos dos alunos”.

Já quanto ao possível regresso dos alunos do 11.º e 12.º anos em Maio às aulas presenciais, o presidente da SPGL tem muitas dúvidas: “Com turmas de mais de 20 alunos não é possível manter a distância social. Para desdobrar as turmas é preciso mais professores, o que não é fácil de conseguir”. Por isso, defende que os exames sejam “adiados para Setembro ou Outubro”, e o início do ano lectivo no ensino superior “seja também adiado, por exemplo para Janeiro”.

Ensino inclusivo. Mais auxílio dos pais

Uma das preocupações dos encarregados de educação e professores vai para os alunos de Educação Inclusiva perante as aulas à distância. Sendo crianças que precisam mais da relação humana e estímulo visual, à falta da presença do professor titular e do professor de educação especial, é necessário envolver ainda mais os pais.

“Elaboramos um plano de trabalho para todos os alunos e, em alguns casos, enviamos aos pais dessas crianças um plano adaptado”, diz Zita Eduardo que lecciona o 1.º ano na EB-JI do Montalvão, em Setúbal.

Com dois alunos de Educação Integrada, a professora titular de turma vinca a necessária grande ligação com o professor de ensino especial e com os pais. “Temos conseguido fazer esse trabalho”, afirma, mas admite que as aulas à distância são “claramente limitadas para estes alunos”.

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