Carnaval de Sines desfila desde que meninas organizavam récitas a favor dos pobres

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Para Rui Encarnação, presidente da Associação do Carnaval de Sines, a festa sineense distingue-se pela tradição e proximidade ao público, que também é parte do desfile

 

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O Entrudo é uma festa de raízes pagãs celebrada em todo o país. A partir do século XIX, o Carnaval ganha um tom mais polido, ao ser apropriado pela burguesia em ascensão na Europa e em Portugal. Os bailes de máscaras, as récitas e os cortejos tornam-se momentos de requinte. O carnaval da cidade francesa de Nice, com os seus corsos, batalhas de flores e carros alegóricos impõe-se em vários locais, incluindo em Sines, e é assim que tudo começa.

Sines é hoje uma das cidades portuguesas com maior tradição carnavalesca. De acordo com a Câmara Municipal, “o Jornal de Sines, em 1901, refere-se a récitas organizadas por um grupo de meninas para obter receitas para os ‘pobres de Sines’, mas também a máscaras criticadas pelo seu ‘aborrecimento’. Nesta altura, o Carnaval tinha já bailes e declamações de poesia. Mais tarde, em 1926, A Folha de Sines, o jornal local da época, anunciava “A Grande Festa Carnavalesca”, com elementos que o Carnaval de Sines mantém até hoje. A partir dos anos 50/60, o Carnaval torna-se uma festa comunitária que traz gente de outros concelhos. Nas ruas do centro histórico desfilavam carros alegóricos, elaborados pelos moradores e decorados com flores e outros elementos em papel, e muitos mascarados.

Do centro histórico para a avenida

Quando se iniciaram as obras do Complexo Industrial de Sines, a partir de 1970, a vila tornou-se uma cidade industrial. Os festejos de Carnaval estiveram parados durante alguns anos. Regressaram na década de 80 e, a partir de 1988, o corso passou do centro histórico para a Avenida General Humberto Delgado.

“A mudança do coração da cidade para uma zona também central, mas que é uma avenida grande, fez com que lá coubesse carros alegóricos muito maiores e se pudesse dar outro brilho à festa”, considera Rui Encarnação, presidente da Associação do Carnaval de Sines e natural da terra que viu nascer Vasco da Gama.

O número de carros aumentou, o de participantes também. Mudou o sítio, mudaram-se os materiais da confecção dos factos. O Carnaval de Sines foi até o primeiro a fazer um desfile nocturno. Apesar de todas as alterações registadas ao longo dos anos, Rui diz que se manteve inalterado “o voluntariado e o gosto das pessoas em fazer o Carnaval. Ninguém recebe e todos ajudam para a construção do seu fato, do seu carro, da sua escola”.

Para Rui, “quem nasce em Sines está sempre ligado ao Carnaval” e o gosto em fazer e participar no Carnaval passa de pais para filhos. “Todos os anos temos grávidas a desfilar e no ano seguinte já desfilam com os seus bebés”, partilha.

O Carnaval de Sines passou a ser também, especialmente nos anos 90, uma atracção turística. “Começou a ter nessa altura uma grande visibilidade”, afirma. A comissão de Carnaval deu, mais tarde, em 2008, origem à associação “Siga a festa”. O nome foi alterado em 2018 para Associação do Carnaval de Sines, que é hoje responsável por organizar um dos maiores carnavais do país, em parceria com a Câmara Municipal de Sines e a Junta de Freguesia de Sines. Como? “Um grupo de pessoas, no mínimo 10, dirige-se à associação e inscreve o grupo. Neste momento já temos carros alegóricos para cada grupo. Cada grupo que se inscreve na associação, paga as quotas anuais e tem um plafon, que é o apoio que podemos dar para a realização dos fatos e dos carros alegóricos”, explica. “Imaginando que o grupo é composto por 100 pessoas, a associação apoia 50, também para que haja uma diversificação dos temas e dos grupos. Cada grupo escolhe o seu tema, não há tema fixo”, adianta, reforçando a importância da diversidade e da criatividade neste sentido.

A vida são dois dias e a magia do Carnaval de Sines são três

17 carros alegóricos, 30 grupos, entre 400 e 500 voluntários e cerca de dois mil participantes. Assim se costumam fazer as contas dos carnavais em Sines. “Até tem vindo a aumentar, mas costuma rondar estes números”, refere o organizador, para depois acrescentar que o que distingue a folia carnavalesca sineense “é a interacção com o público, que também pode participar de forma organizada. É só juntar-se ao desfile e sentir a magia do Carnaval de Sines”.

Dinâmica da associação estende-se a outras actividades

Depois do Carnaval, a associação de Sines costuma ainda realizar as marchas populares, acções de angariação de fundos e a festa de passagem de ano. Este ano, devido à pandemia de Covid-19, não foi possível realizar as marchas, mas os trabalhos acabaram por nunca parar. Em conjunto com 50 costureiras e ajudantes produziu e distribuiu cerca de dez mil equipamentos de protecção individual por diversas entidades, empresas e famílias dos concelhos de Sines, Santiago do Cacém e Odemira.

Planos para o desfile do próximo ano

Para a edição do próximo ano, a realizar-se entre 12 e 17 de Fevereiro, se a conjuntura actual o permitir, os trabalhos serão iniciados entre Setembro e Outubro.

A criação de uma linha de produtos para os visitantes do Carnaval de Sines e a perspectiva de aumentar o recinto do corso e os lugares da bancada que voltaram a existir na edição deste ano são alguns dos planos para o futuro, ainda que este se apresente por agora incerto. Para manter é o sempre presente objectivo de “elevar o Carnaval de Sines” a cada ano que passa. Neste sentido, foi recentemente realizado investimento no website da associação para dar, de acordo com Rui Encarnação, “mais visibilidade ao Carnaval, tornando-o mais inovador e próximo de todos, mostrando a mais pessoas toda a alegria que se vive em três dias magníficos de folia”.

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