Grândola: “Musica velha”, a colectividade que abriu caminho para “Grândola, Vila Morena”

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Luís Vital Alexandre, presidente da “Música Velha”, tem os olhos postos no futuro, mas mantém sempre presente a história da colectividade que completou 108 anos em Maio

 

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Fundada a 1 de Maio de 1912, por um grupo de operários da indústria corticeira, a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense é a mais antiga colectividade do concelho. Sem interrupções na sua actividade centenária, havia de ser nas instalações da SMFOG que José Afonso encontraria inspiração para “Grândola, Vila Morena”.

Foi na SMFOG que se abriu caminho para a criação daquela que viria a ser uma das senhas da Revolução dos Cravos. “Para além da sua actuação por ocasião do nosso 52º aniversário, passou o dia em Grândola. Veio de comboio, fez o percurso a pé até à nossa sociedade, conheceu a vila, almoçou por aqui”, conta o actual presidente da colectividade, Luís Vital Alexandre, lembrando a visita de José Afonso a Grândola a 17 de Maio de 1964, 10 anos antes do 25 de Abril. Dias mais tarde, “por todo o espírito que encontrou em Grândola, e pela forma como foi recebido, chegou, por correio, à nossa sociedade, o poema original de ‘Grândola, Vila Morena’, que não corresponde exactamente à versão gravada em 1971 por José Afonso em Paris”, continua.
Jurou ter Grândola por companheira e à “terra da fraternidade”, José Afonso voltou diversas vezes para participar em eventos organizados pela SMFOG. Para Luís Vital Alexandre, que dirige a colectividade desde 2013, “ninguém esperava que um simples convite feito pela direcção de então a José Afonso viesse fazer com que Grândola ficasse para sempre ligada à história do 25 de Abril e de Portugal,” mas “não há futuro sem passado e a história é algo que teremos sempre de relembrar”.

Porquê “Música Velha”?

Uma separação que na década de 1930 deu origem a outra banda filarmónica conhecida como “Música Nova”, que, entretanto, se extinguiu, viria a baptizar a SMFOG com o nome “Música Velha”, pelo qual ainda hoje é por muitos conhecida.

Durante o Estado Novo, a SMFOG foi palco de uma dinâmica cultural de enorme relevância no panorama local. Foi criado um grupo cénico cujo encenador era Hélder Costa, “grande nome do teatro português, ainda hoje em actividade, que por vezes volta a Grândola, onde encenou as suas primeiras peças, para fazer uma visita”, recorda. A única colectividade do concelho vocacionada para a cultura e a educação musical recebeu, ao longo do tempo, para além de José Afonso, Alves Redol, Antunes da Silva, Romeu Correia, Lopes Graça, Carlos Paredes e outros nomes da cultura portuguesa. Após o 25 de Abril, Portugal ganhou a liberdade e este fulgor foi-se perdendo, até à viragem do século. No início dos anos 2000, já não existia biblioteca nem grupo de teatro, mas a Banda Filarmónica da SMFOG mantinha-se e ganhava nestes tempos uma nova força.

“As bandas existem para tocarem para as suas gentes”

A Banda Filarmónica apresenta-se com 68 músicos, dos 10 aos 93 anos. A Banda Juvenil, por seu turno, começou como um projecto de formação e actualmente conta com 45 músicos e uma agenda própria. 80 alunos e 9 professores fazem a Escola de Música e o Ensemble de sopro e percussão reúne um repertório muito próprio de música de intervenção.

Participa, em conjunto com a Paróquia de Grândola, no Concerto de Natal e no ano passado dividiu-se em grupos para poder chegar às freguesias do concelho. “Dado que é a única no concelho, será a banda de Grândola, concelho, e não apenas da vila. As bandas existem para tocar para as suas gentes, não só para fazer grandes concertos, mas também para tocar em desfile na rua”, afirma. Sob direcção musical do maestro Luís Filipe de Araújo e Silva, também director pedagógico da Escola de Música e músico da Banda da Armada, entre as principais actividades da colectividade grandolense destacam-se o Encontro de Bandas Civis, o Encontro de Bandas e Orquestras Juvenis, as comemorações do 25 de Abril e outros eventos do concelho, e a realização bianual do concerto de abertura da Feira de Agosto, no qual tem partilhou nos últimos anos o palco com artistas como Sérgio Godinho e Miguel Ângelo.

A sociedade leva ainda animação cultural ao Cineteatro Grandolense desde 2014. Noites de Jazz na Música Velha é um dos projectos dinamizados neste sentido e para 14 de Agosto está já marcado o regresso do guitarrista Bruno Santos e Rita Redshoes para concerto ao ar livre, depois de lotação esgotada em Fevereiro.

Quando entrou para a direcção, a única ligação que Luís Vital Alexandre tinha à casa era afectiva: os filhos faziam parte da banda e da escola de música e o bisavô foi fundador da SMFOG e segundo maestro regente da banda. Hoje, soma oito anos no comando. “Enquanto estiver por cá, eu e os meus colegas, porque isto tem de ser um esforço de equipa, vamos fazer o melhor possível”, garante, agradecendo o apoio do Município de Grândola, principal parceiro e suporte da actividade da casa, da Junta de Freguesia de Grândola e das demais entidades que têm vindo a ajudar a colectividade.

Planos para o futuro

A curto prazo, a colectividade tem “um grande desafio”, comum a muitas outras filarmónicas, que é o regresso ao trabalho. “Estamos com a actividade suspensa desde 13 de Março, retomámos, entretanto, os ensaios, com as devidas condições de segurança, mas é certo que este ano as bandas já não se conseguirão apresentar em concerto”, lamenta o presidente, tendo presente “os muitos objectivos traçados para este ano que ficaram sem efeito”.

A médio e longo termo, manter os resultados alcançados, continuar a fazer o concerto da Feira de Agosto, ainda que a programação deste ano tenha sido deferida para 2021, a SMFOG só actuará em 2022, e impulsionar os projectos locais, são os principais objectivos. “Independentemente de estar, ou não, aqui para o ano, espero que quem esteja venha com o objectivo de fazer mais e melhor, mas que consiga manter os números. Com isso, já fico, enquanto sócio e pessoa que gosta desta casa, muito satisfeito”, remata.

Candidatura à DGArtes leva música ao Lousal

Tendo sempre a música como foco, a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense tem neste momento a decorrer um projecto, que conta com o apoio da Direcção-Geral das Artes, para dinamizar musicalmente a Aldeia Mineira do Lousal.
“O projecto cruza diversas artes performativas, em parceria com a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, e prevê a realização de residências artísticas que vão dar origem a um vídeo documentário e a diversas performances interpretadas no local”, explica o presidente da sociedade grandolense, acrescentando que “uma das performances contará com a participação da nossa banda, que está a preparar uma composição original”.

Por agora, devido à Covid-19, o projecto encontra-se em stand-by mas “se a situação permitir, o projecto será retomado em Setembro e decorrerá até Maio/Junho do próximo ano”.

B.I.
Nome: Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense
Também conhecida por: Música Velha
Localidade: Grândola
Data de fundação: 1 de Maio de 1912 – 108 anos
Principais actividades: Banda Filarmónica, Banda Juvenil e Escola de Música
Actual presidente: Luís Vital Alexandre

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