Sociedade Piedense: Fundação intimamente ligada à Revolução Industrial e ao colectivo

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Depois de se lançar na ‘era das máquinas’, a Cova da Piedade ganhou estrutura na educação e cultural com a SFUAP

 

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A segunda mais antiga colectividade do concelho de Almada, a Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (SFUAP) está intimamente ligada à história da Cova da Piedade, localidade que vivia da pesca e agricultura e que veio a ganhar grande impulso com a Revolução Industrial operada a partir da Grã-Bretanha, nos séculos XVIII e XIX, e que alastrou por toda a Europa.

Com a mecanização e o fabrico em série, a laboração manual começa a cair em desuso; são novos tempos, mais exigentes e de novas ideias com os trabalhadores a recusar a exploração da burguesia que crescia financeiramente com a industrialização, mas também surgiam industriais visionários que ajudaram a construir o colectivo. Era o tempo de uma nova convivência social que leva também à formação das sociedades de instrução e recreio. A criação da SFUAP está nessa raiz.

Nasceu da “vontade dos homens deixarem a sua marca no caminho da vida”. Constituída a 23 de Outubro de 1889, a SFUAP teve entre os seus fundadores António José Gomes, “industrial de horizontes largos”, filho do também industrial Manoel José Gomes, proprietário da primeira fábrica de moagem a vapor no Caramujo, em 1864.

Para a moagem na Cova da Piedade acorriam para trabalhar gentes dos campos; é o novo proletariado que “vai tomando consciência de classe e da sua força colectiva como forma de evolução do novo trabalhador, através das Artes e do Ensino”, lê-se em documento do acervo da colectividade, sobre as razões da sua origem.

Entre os fundadores estavam Domingos da Saúde, António Francisco Caramelo, Artur Ferreira de Paiva (primeiro regente da banda da SFUAP), António Pedroso, António Vicente Padrão, Carlos Ahrends, Daniel Andrade, Francisco Maria Batista, Manuel Tavares, António Xavier Araújo e Salustiano Andrade Paiva. Para os 12 que fizeram nasceu a SFUAP era prioritário fundar, e fundaram, uma escola primária para os filhos dos trabalhadores e mais tarde também para adultos. Era também imperioso fundar uma Banda de Música Filarmónica. E, na continuidade das arte e ensino, em 1890 foi criado um grupo de teatro e depois uma biblioteca.

Anos depois, o Theatro Almeida Garrett da SFUAP, e no Verão na esplanada, passavam sessões diárias de cinema. Anexado à antiga sede veio a ser construída uma piscina e bem depois um pavilhão desportivo. Um marco ainda do clube é a fundação da secção de campismo em 1968, que veio a ter parque próprio em 1974.

Já sem cinema, sem teatro e ensino lectivo, a SFUAP continuava conhecida também pelos seus bailes. E, enquanto tinha a Filarmónica como estandarte, apostava em modalidades desportivas como a ginástica e natação, que tantos troféus deram à colectividade.

“Os nossos maiores esforços concentram-se presentemente na Banda Filarmónica, Escolas de Música, Ginástica Rítmica e Acrobática, Judo, Aikido e Laido, Pilates, Dança Contemporânea e Ballet. Temos ainda a natação de competição, as escolas de natação e restantes disciplinas aquáticas. O campismo é outra nossa orientação, à qual aderem centenas de associados”, diz Luís Gonçalves, presidente da direcção da SFUAP.

Apesar de grande dinâmica, a colectividade hoje com sede no antigo palácio de António José Gomes, também tem sofrido com as ‘dores’ do movimento associativo, revela o seu presidente que “a primeira dificuldade, é encontrar os recursos financeiros indispensáveis para podermos disponibilizar um leque bastante alargado de actividades recreativas, desportivas e culturais. Todos sabemos que estas áreas, de carácter amador, são genericamente deficitárias, obrigando a um permanente esforço de equilíbrio para que as possamos manter activas”.

E agora pior ainda quando “devido aos efeitos da actual pandemia tudo ficou mais difícil, na medida em que nos vemos confrontados com uma grande quebra nas receitas, ainda que as despesas se mantenham na totalidade”. Conta o dirigente que ascende a “centenas de milhares de euros” a perda de receita com a passada paragem das escolas de música, da Banda Filarmónica, das classes desportivas das áreas gímnicas e da natação, bem como o parque de campismo”.

Todavia, os objectivos a curto e médio prazo traçados antes da crise provocada pelo Covid-19 continuam de pé. “Ainda que tenhamos sofrido um certo abalo, os objectivos não foram alterados e traduzem três linhas principais: manter o essencial das nossas actividades num equilíbrio satisfatório; continuar a investir no nosso parque de campismo situado na Costa da Caparica, de modo a melhorar ainda mais o conforto e a segurança dos utentes, e construir a sede e respectivas instalações desportivas e culturais, obra de grande dimensão e que exige um investimento avultado”, esclarece Luís Gonçalves.

Entretanto, com o desconfinamento, o presidente da SFUAP fala da recente “retoma gradual das actividades”. Mas também diz que estão a ser “respeitadas as orientações da Direcção-Geral da Saúde”; medidas preventivas e de segurança que obrigam à “gestão dos espaços e limitação do número de praticantes em simultâneo”. São estas condicionantes que não lhe permitem prever o regresso à plena normalidade, e como diz: “não temos ainda um horizonte definido”.

Décadas de 70 e 80: Bailes inesquecíveis e mega-concerto rock

São incontáveis os troféus conquistados pelas várias secções desportivas da SFUAP, em particular na natação e ginástica. Todavia, outros momentos tiveram grande relevância na vida da centenária colectividade, alguns eles nas décadas de 70 e 80 do século passado.
É o caso das famosas matinés dançantes que atraíam gente de todos os pontos do distrito e até de Lisboa, que enchia o pavilhão com capacidade superior a 3 500 pessoas. Mereciam também destaque as passagens de ano e o Carnaval comemorado com nada menos que seis bailes em quatro dias: as noites de sábado, domingo, segunda e terça e, ainda, as tardes de domingo e terça-feira.

Acontecimento único na história das festas na SFUAP, mas marcante, foi a 2 e 3 de Junho de 1973, com o seu pavilhão a colher cerca de seis mil jovens para assistirem ao IV Festival da Juventude de Almada, que incluiu um fabuloso concerto que teve como cabeça de cartaz o grupo britânico “Atomic Rooster”, na altura conhecido a nível mundial. No palco estiveram ainda a “Heavy Band”, banda de Lisboa onde se destacavam Filipe Mendes, na guitarra e voz, e Zé Nabo, no baixo, e ainda a banda “Kama Sutra”, grupo almadense que, na altura, estava na primeira linha do rock que se fazia em Portugal.
Na memória também, a vinda ao cine-teatro de conhecidos cantores de intervenção, que no pós-25 de Abril de 1974 enchiam a sala.

BI
Nome: Sociedade Filarmónica União Artística Piedense
Também conhecido por: SFUAP
Localidade: Cova da Piedade
Data de fundação: 23 de Outubro de 1889
Principais actividades: Natação de competição, Ginástica Rítmica e Acrobática, Judo, Dança Contemporânea, Ballet e Campismo
Actual presidente: Luís Gonçalves

Por José Augusto

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