União Piscatória Aldegalense: “A colectividade foi edificada pelos seus pescadores, com o seu suor e lágrimas”

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Pescador e antigo presidente da SCUPA, António Manuel Lourenço dos Santos

Criada para “ajudar os homens da faina”, actualmente foca-se em “honrar a história, a tradição centenária e os seus fundadores”

 

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Por ser, desde sempre, uma profissão cheia de incertezas, em que nenhum profissional sabia qual era o resultado do seu esforço, um grupo de pescadores uniu-se e criou, em 1910, “a Associação de Pescadores de Aldegalega, uma associação de entreajuda nos períodos de maior dificuldade na faina, em termos de aquisição de bens”. Três anos mais tarde, a 2 de Março de 1913, a mesma foi legalizada “como cooperativa de consumo e de apoio aos pescadores”, na qual “descontavam dos seus rendimentos para o benefício de todos”, com o nome de Sociedade Cooperativa União Piscatória Aldegalense (SCUPA).

“Esta casa foi criada para os ajudar nessa ausência de recursos, ou seja, formaram um mercado, onde se vendiam produtos para se abastecerem e levarem para o mar. Quando regressavam vendiam o seu peixe e pagavam o valor em dívida à casa”, começa por contar Paulo Coelho, actual presidente da SCUPA. “Até ao início dos anos 70 funcionava assim, onde só eram admitidos pescadores e seus familiares. A partir dessa década, as sucessivas crises no sector e o envelhecimento dos profissionais obrigaram a uma reconversão”. Foi, então, “aprovada a entrada de outros associados, decisão que permanece hoje, em que dos 400 sócios que possui, cerca de 80% são pessoas com laços familiares a pescadores e entre 10 a 15% são efectivamente profissionais do sector”.

Enquadrada nos limites do antigo Bairro dos Pescadores, “onde habitava a maioria das pessoas que fazia desta a sua profissão”, “a SCUPA foi construída de raiz no edifício onde ainda hoje se mantém”. “Com três andares, a colectividade foi edificada pelos seus pescadores, desde o primeiro tijolo, pedra e grão de areia, com o seu suor e lágrimas. Construíram-na por fases, conforme iam recebendo os seus subsídios e com favores de pessoas com pequenas fábricas que iam ajudando como conseguiam”, conta Paulo Coelho, acrescentando que, “para honrar os pescadores e todos os que se encontram ligados à associação que já faleceram foi colocada uma homenagem, com as suas fotografias, no Salão Nobre”.

Com o passar dos anos, o número de pessoas dedicadas à pesca foi diminuindo no concelho e, por este motivo, “a colectividade teve de se reinventar”. “Actualmente, volvidos mais de 100 anos, a SCUPA continua a pertencer à comunidade e tem a missão de preservar e divulgar o património ligado à pesca. Tornou-se uma cooperativa ao nível cultural que promove, para além das Festas Populares de São Pedro com a autarquia local, actividades turísticas, com passeios no Tejo a bordo das embarcações tradicionais Deolinda Maria, Lubélia Maria e Maria João, o Museu Etnográfico do Pescador Montijense e a Ermida de Nosso Senhor Jesus dos Aflitos, na Quinta do Saldanha. Para além disto, organiza workshops ao longo do ano, noites de fado e de karaoke e sessões de bandas jovens”.

O futuro, segundo o presidente da colectividade, passa “não só por ajudar os pescadores que restam, sendo este o seu ADN, como por manter a chama da casa acesa, para se continuar a honrar a sua história e tradição centenária e os seus fundadores, através da criação de novos projectos ligados ao mar”. “Temos como ambição criar um passeio marítimo-turístico próprio, em conjunto com a autarquia local e pretendemos fazer alterações no Esteiro da Quebrada, que é para onde as embarcações dos nossos pescadores vão, para embelezar a zona ribeirinha e para arranjar condições para as mesmas. É necessário acrescentar rampas para as embarcações permanecerem hibernadas no Inverno”, adianta.

Museu do Pescador criado para “evocar a sua comunidade”

Para “evocar a memória da sua comunidade”, a Sociedade Cooperativa União Piscatória Aldegalense desenvolveu, a 18 de Junho de 1988, através da vontade do presidente de então, Manuel Pereira dos Santos, o Museu Etnográfico do Pescador Montijense. “Este não pretende ser um depositário de memórias, mas uma entidade viva. Foi concebido inicialmente no edifício da SCUPA, mas acabou por ser transferido, em 2014, para a antiga escola Conde Ferreira através de um protocolo estabelecido com a Junta de Freguesia do Montijo”, revela Paulo Coelho.

A sua colecção “retracta a história local da arte da pesca”, construída “por um monopólio de pescadores, a partir dos seus próprios bens”. Acolhe “cerca de 80 peças, divididas entre a faina, as actividades complementares, os pescadores e a sua generosidade”. “Neste local permanecem miniaturas de embarcações tradicionais, peças restauradas e reproduções de lugares típicos. Possui, ainda, um modelo em miniatura da antiga arte fixa que se praticava no rio, documentos relativos às embarcações, uma embarcação de pesca tradicional recuperada, redes e outros apetrechos”. “É um espaço onde a comunidade piscatória se revê, nascendo com o símbolo da sua identidade, da sua cultura e dos seus costumes”, conclui.

B.I.
Nome: Sociedade Cooperativa União Piscatória Aldegalense
Também conhecido por: SCUPA
Localidade: Montijo
Data de Fundação: 2 de Março de 1913
Principais actividades: Preservar e divulgar o património ligado à pesca
Actual presidente: Paulo Coelho

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