Célia Aranha conta como recuperou da Covid-19: “Sinto-me uma sobrevivente”

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Fez um teste e disseram-lhe duas vezes que tinha dado negativo. Cinco dias depois ligaram-lhe a confirmar a pior notícia. Um testemunho de resistência

 

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“Hoje sinto-me viva. Uma sobrevivente.” Este é o testemunho de uma guerreira, que aos 52 anos lutou para lá do limiar das forças e venceu a Covid-19. Célia Aranha, do Montijo, foi um dos primeiros casos identificados e recuperados no Distrito e estará hoje, a partir das 18h45, em directo no Facebook d’ O SETUBALENSE.

Acedeu a partilhar a experiência vivida ao longo de um mês de resistência, não só para destacar a “excelente forma” como foi tratada pelos profissionais do hospital do Barreiro como, sobretudo, para transmitir “uma mensagem de esperança” a todos os que se debatem ou vão ter de enfrentar os efeitos do flagelo da infecção. A história que acabou por correr bem, com final feliz, começou, no entanto, mal, pior do que se esperaria, para a gerente da empresa ARASIL, de sistemas ETICS, isolamentos exteriores.

“Sentia uns picos na garganta e no dia 13 de Março (sexta-feira), como tinha feito uma viagem ao Cairo, com escala em Madrid, com o meu marido num grupo de cerca de 40 pessoas, resolveram fazer-me o teste. Fiz no hospital do Montijo e por duas vezes fui informada de que o resultado era negativo”, começa por contar.

O coronavírus, porém, estava lá, só que ninguém o detectou. “Contactaram-me a informar do resultado negativo e depois, como piorei, com fortes dores musculares, muitas dores de cabeça, tosse seca e já febril, liguei para o hospital do Montijo a perguntar se tinham a certeza do resultado. A resposta foi que todos os testes realizados até então, segunda-feira, 16 de Março, tinham sido negativos”, lembra.

Mas os sintomas agravaram-se ainda mais e Célia tentou contactar a linha do SNS. “Estive horas intermináveis a tentar a ligação, já tinha muita dificuldade em respirar. Só consegui ser atendida no dia seguinte, terça-feira. Estive cerca de quatro horas à espera que estabelecessem ligação ao INEM e acabei por desligar.”

Para trás ficava quase uma semana. Sempre a piorar. “Apareceu-me diarreia e perdi, completamente o paladar e o olfacto. Nem sequer sentia a textura dos alimentos. Já tinha passado por gripes fortes, mas nunca uma coisa assim”, recorda, adiantando que na quarta-feira, 18 de Março, chegou a confirmação. “Já estava muito mal quando por volta das 14h00 me ligaram do hospital do Barreiro. Afinal o teste que tinha feito no dia 13 no Montijo estava positivo.”

Tratamento experimental salvou-a

“Transmiti à médica todos os sintomas e ela decidiu enviar uma ambulância do INEM de imediato. Às 19h00 a ambulância ainda não tinha aparecido. Tive de ligar para o hospital do Barreiro e contar toda a situação, pois àquela hora já ninguém sabia do caso. Liguei também para o INEM e disseram que a viatura estava a sair de Setúbal. Depois de ter voltado a ligar para o INEM e de o meu marido ter repetido a chamada, às 23h00, é que vieram buscar-me. Eram 23h30 quando uma ambulância da Cruz Vermelha do Carregado chegou para me levar para o Barreiro”, lamenta.


Célia ficou internada nessa quarta-feira e só viria a sair de confinamento no dia 13 de Abril.

“Foi muito difícil, o início de um isolamento profundo. Sentimo-nos sós. Somos nós e a doença. Sentimos mesmo que o corpo fica à mercê do vírus. Perdemos a força de lutar. Cansava-me a comer. Já só conseguia levantar-me, em esforço, para ir à casa de banho. As dores nas pernas, nas articulações, dava a sensação de que iam rebentar. E aquela falta de ar…”, explica.

A entrada no hospital acabou por acontecer algo tardia, considera.

“Já tinha pneumonia bilateral. No domingo, 22 de Março, o médico disse-me que o vírus estava a avançar demasiado rápido. Propôs-me um tratamento que havia sido experimentado na China e na Itália, que tinha resultado em alguns pacientes e noutros não. Era meio por meio. E para o fazer precisava da minha autorização”, revela. “A minha escolha foi rápida. Disse sim”, relata, explicando: “É um tratamento feito em doentes com HIV e Malária durante 10 dias. Foi a minha sorte. Só senti efeito três ou quatro dias depois.”

O paladar voltou. Um bom sinal, mas.. “Ainda hoje não é como era. A 1 de Abril fiz novo teste, que deu ainda positivo, mas decidiram que podia voltar nesse dia para casa”, conta.

No dia 9 de Abril, Célia voltou a fazer nova despistagem. “Deu inconclusivo. Repeti no dia 11 que já deu negativo e 48 horas depois testei e voltou a ser negativo. Desde 13 de Abril que fui dada como recuperada”, desabafou.

Na passada segunda-feira, voltou a realizar exames. “Fizeram-me raio-X e análises. Está tudo bem”, concluiu.

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