Arqueólogos trabalham na exumação da família Cotrim e na descoberta da batata

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Investigadores supõem que, na igreja, está sepultado Rui Cotrim de Castanheda, capitão da 2.º armada militar de Vasco da Gama à Índia

 

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Depois de interrompidos em Março, face à pandemia, os trabalhos do projecto de investigação arqueológica “Sarilhos Grandes entre Dois Mundos (SAND)” vão ser retomados no próximo dia 13 de Julho. Paula Pereira, arqueóloga que lidera a equipa de investigação, revela que esta segunda fase do projecto incidirá numa “campanha única de escavações no interior e exterior dos espaços da Ermida de N. Sra. da Piedade e da Igreja de S. Jorge”.

A presença de restos alimentares que revelaram amido de batata em dois dos esqueletos, datados de 1324-1625 e exumados durante a primeira fase do projecto, surpreendeu os investigadores, já que a data mais antiga (historicamente conhecida) da introdução da batata em Portugal aponta para 1643 (apesar de referenciar 1567 para a Europa). Igualmente surpreendente, nesse mesmo primeiro momento do projecto, foram as presenças do “fungo Candida albicans e do parasita Trichostrongylus”, identificados pela primeira vez em Portugal nos esqueletos exumados em Sarilhos Grandes.

Agora, a segunda leva de escavações, “onde jaz a família Cotrim”, visa “identificar o número de pessoas sepultadas na igreja para se estabelecer o perfil biológico, sexo, idade e doenças, através de análises paleoparasitológicas”, explica a investigadora. No local, estão “supostamente os restos mortais de Rui Cotrim de Castanheda”, capitão da 2.ª armada militar de Vasco da Gama à Índia, que a equipa espera encontrar.

“Supomos que os corpos destas famílias eram sepultados juntamente com vários objectos e que estas fariam uma alimentação diferente da das outras pessoas [menos abastadas]”, acrescenta a arqueóloga, lembrando que a equipa pretende também estabelecer a comparação com os restos mortais já levantados na primeira fase do projecto.

Acrescentar, assim, novos dados que validem os resultados já obtidos, desenvolvendo um campo-escola de arqueologia, envolvendo a comunidade, e perceber melhor o papel dos sarilhenses e dos habitantes de Aldeia Galega do Ribatejo (hoje Montijo) na Expansão Portuguesa é o objectivo global a que apontam os investigadores e a Câmara Municipal do Montijo, que promove o projecto.

Campo-escola com inscrições abertas

Até 5 de Julho “estão abertas inscrições para o referido Campo-Escola de Arqueologia e Antropologia, que vai decorrer de 13 de Julho a 2 de Outubro, na Ermida de N. Sra. da Piedade e na necrópole e Igreja de S. Jorge”, anunciou a autarquia.

De acordo com a edilidade, o campo-escola do projecto SAND permitirá que a comunidade integre “uma equipa de antropologia e arqueologia” e que “ aprenda e pratique metodologias de escavação arqueológica, técnicas de registo arqueológico, tratamento e inventário de materiais arqueológicos e vestígios osteológicos”. Ao mesmo tempo, o município afirma que “as condições de segurança e as orientações das autoridades de saúde serão garantidas” durante todo o tempo de execução do campo-escola.

Em 2008, durante uma intervenção da SIMARSUL, foi realizada uma escavação arqueológica de salvaguarda no Largo da Igreja de Sarilhos Grandes, a qual incidiu sobre a necrópole (cemitério) da Igreja de S. Jorge e a Ermida de N. Sra. da Piedade. Nessa primeira acção foram descobertos “21 esqueletos”, que viriam a ser exumados, sendo assim desencadeada “uma investigação bio-arqueológica para analisar os vestígios recuperados” por uma equipa multidisciplinar. As descobertas ganharam dimensão maior já em 2018, com a revelação dos dados apurados.

Autarquia, Universidade de Coimbra e Diocese de Setúbal juntam-se em projecto

O projecto SAND, cuja 2.ª fase mereceu deferimento da Direcção-Geral do Património Cultural, resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal do Montijo, a Universidade de Coimbra, a Diocese de Setúbal, entre outras entidades.

“Os dados alcançados até 2018 permitiram dar a conhecer uma amostra de população ribeirinha cujas investigações levaram à identificação de alguns parasitas relacionados com a ingestão de carnes e de águas contaminadas, o consumo de batata, centeio/trigo, feijão ou grão-de-bico, entre outros vegetais, bem como de crustáceos. Alguns destes achados, bem como do fungo Candida albicans, foram pela primeira vez identificados em território nacional nas cronologias em estudo”, resume a autarquia, em nota de Imprensa.
Recorde-se que a divulgação dos resultados foi avançada em conferência, em 2018, que teve lugar na Galeria Municipal. Foi ainda promovida uma exposição, intitulada “Sarilhos Grandes Entre Dois Mundos: o Oriente e o Ocidente”, que apresentou as informações apuradas pela investigação.

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