Técnica do Seixal diz que pandemia desencadeou boom da Língua Gestual Portuguesa

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Como a língua falada, também a gestual tem neologismos, estrangeirismos e regionalismos. Difícil são os termos técnicos

 

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Técnica superior na Câmara do Seixal, Teresa Miranda tem, entre outras competências na autarquia, a de intérprete de Língua Gestual. Um instrumento de comunicação oficial da República Portuguesa tal como o Português e o Mirandês.

Neste tempo de pandemia pelo Covid-19, a necessidade comunicar o mais possível com todos ganhou maior dimensão, e a Língua Gestual teve um boom, estando constantemente presente em programas televisivos.

Diplomada nesta técnica de comunicação em 2007, pela Escola Superior de Educação de Setúbal, Teresa Miranda explicou a O SETUBALENSE questões desta língua com neologismos, estrangeirismos e regionalismos, mas com maiores dificuldades em interpretar termos de natureza técnica e científica.

“Neste domínio, estamos muito atrasados em relação a outros países, inclusivamente a Espanha, ainda que nos últimos 10 anos as coisas tenham melhorado”, diz.

“Só muito recentemente, creio que a meados do ano passado, as tecnologias para comunicar com diversas instituições e serviços, como emergência médica, autoridades policiais ou empresas de telecomunicações, por exemplo, foram postas à disposição dos surdos”.

Na verdade, comenta esta técnica da comunicação, “houve um salto muito rápido”. Inclusivamente, passou a existir o portal do cidadão surdo e o SERViiN – INTERPRETAÇÃO EM LGP, um serviço de intérpretes que tem protocolos com algumas instituições.

“As coisas começaram realmente a andar para a frente quando os surdos passaram a ter acesso a estas tecnologias”, comenta Teresa Miranda.

Todavia, isto não resolveu tudo, uma vez que “continuam a subsistir dificuldades para a comunidade surda. Uma delas é quando um cidadão dessa comunidade se vê obrigado a contratar um intérprete, paga preços exorbitantes”.

Apesar do que já foi feito para ajudar esta comunidade, “continua a haver muitas falhas no nosso país no que concerne ao apoio a surdos. Há países muito mais avançados, neste aspecto, creio até que é uma questão de mentalidade”.

Além disso tudo seria mais fácil com uma tecnologia mais avançada. “Há já televisões inteligentes, em que o surdo pode pôr o intérprete em grande plano, ou escolher os elementos do écran que mais lhe interessam para o entendimento do que se passa”, esclarece Teresa.

Cada país tem o seu próprio alfabeto gestual, mas há um sistema gestual internacional, porventura, â moda de um esperanto gestual. Mais interessante, ainda, é que, tal como a língua falada, também a gestual evolui ao mesmo ritmo. “Por isso, tem neologismos, estrangeirismos, regionalismos. Há gestos na Madeira, por exemplo, que não há no Porto. Os surdos têm um espírito muito comunitário e, sempre que surge uma nova realidade, logo buscam um gesto para a traduzirem e é adoptado pela comunidade”, sublinha a intérprete.

Entretanto, as maiores dificuldades para quem interpreta “surgem com os termos técnicos, científicos ou ligados à investigação. Nestes casos, há que fazer uma preparação prévia. Por vezes, basta não se traduzir uma palavra para que toda a frase se perca”, afirma Teresa Miranda. Mais fácil, e isto parece-nos estranho, “é interpretar sentimentos e emoções, porque a Língua Gestual é mesmo isso. Pelo menos, esta é a minha opinião”.

E será possível interpretar uma cena sensual? Diz Teresa que “se os actores falarem, claro que traduzimos. Por outro lado, se o surdo vê que o intérprete tem as mãos paradas, quer dizer que não há diálogo, apenas movimento”.

No entanto, “por uma questão ética, não traduzimos palavrões, embora tecnicamente não ofereça dificuldade. Às vezes até pergunto ao surdo se é mesmo para traduzir. A maior parte das vezes diz que não, que não vale a pena dar-me ao incómodo”.

Considerando a evolução da comunicação, a técnica da Câmara do Seixal considera que “devia haver uma maior circulação de intérpretes, mesmo online e o serviço deveria ser custeado pelo Estado. Estou frontalmente contra que o trabalho do intérprete tenha de ser custeado pelo surdo!”

Para a Teresa Miranda as crianças deveriam poder, desde a primária, falar com surdos e terem aulas de Língua Gestual. “Elas até gostam, já que têm um jeito inato para se expressarem. Seria também um importante passo para a cidadania, que certamente mudaria o mundo”.

O que todos devíamos saber

Há Língua Gestual e não linguagem gestual. E um surdo é surdo, não surdo-mudo, como tantas vezes se houve e lê.

A Língua Gestual Portuguesa (LGP) tem origem na Língua Gestual Sueca e não na língua oral portuguesa.

A estrutura da LGP é bem diferente da do Português. A ordem natural da frase é sujeiro-objecto-verbo ou objecto-sujeito-verbo. As frases interrogativas ou declarativas identificam-se com elementos não manuais, como o arquear das sobrancelhas ou movimento dos ombros, por exemplo.

A Língua Gestual não é igual em todo o mundo. Cada país possui a sua própria, que também vai evoluindo com o tempo.

Aprender LGP é tão difícil ou fácil como aprender outra língua qualquer. Diz quem sabe que é tudo uma questão de prática e estudo.

Por José Augusto

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