30 Novembro 2020, Segunda-feira
- PUB -
Início Local Seixal Pandemia abriu ponte que veio dar mais relevo à Língua Gestual Portuguesa

Pandemia abriu ponte que veio dar mais relevo à Língua Gestual Portuguesa

Dina, Miguel e Paulo consideram existir muitas melhorias, mas ainda muito há por fazer para ‘ouvir’ quem não ouve

São mulheres e homens cujas necessidades parecem ter sido descobertas apenas quando, na sequência da situação pandémica, começaram a surgir mais frequentemente nos meios televisivos intérpretes da Língua Gestual Portuguesa. Dina Oliveira, Miguel Santos e Paulo Formiga, trabalham na Câmara Municipal do Seixal, e fazem parte da comunidade de surdos.

- PUB -

Com o auxílio de Teresa Miranda, técnica superior na mesma autarquia, e especializada em língua gestual, estes três trabalhadores dão a saber a O SETUBALENSE que “as coisas melhoraram bastante, embora haja ainda muito a fazer. Actualmente, por exemplo, já podemos comunicar com a urgência médica através de uma vídeo chamada. A Federação Portuguesa das Associações de Surdos também pôs intérpretes à nossa disposição. Seja como for, não sentimos que nos possamos mover livremente, continuam a existir muitos obstáculos, muitos bloqueios”.

A ausência de audição apurou-lhes outros sentidos, como a visão e o olfacto. Diga-se que o seu organismo é mais sensitivo. “Eu ponho o telemóvel em modo de vibração, quando vou dormir, e se ele vibrar acordo imediatamente”, explica Dina Oliveira.

Surdos também vão a concertos

- PUB -

Todavia, o que sentem perante música, ou o barulho do mar, ou o riso que lhes são silenciosos? “Eu vou a concertos, chego-me à frente o mais possível e sinto os batimentos da música com o corpo todo. No carro, ponho também a música o mais alto que posso. Quanto ao mar, na verdade não o ouço, mas compenso esse desgosto com o cheiro a maresia, o vento, a visão do imenso azul…”, refere Miguel Santos.

Paulo Formiga, no entanto, tem outro entendimento. “Sentir só os batimentos não me chega, falta-me o encanto da música, e isso põe-me triste e ansioso. Compenso viajando, passeando, conhecendo outras pessoas”, revela. Mas também lamenta: “A sensibilização para os nossos problemas chegou muito tarde. Repare-se que o 112 só tem intérpretes desde há um ano e o Serviço Nacional de Saúde, só depois da Covid-19 ter imposto essa exigência. A mim parece que tudo demorou muito”.

Luís conta o que lhe aconteceu quando tinha quatro ou cinco anos, vivia então com os pais na Madeira. “Queriam por força que eu falasse, queriam obrigar-me a falar, ralhavam-me e batiam-me, chegavam a puxar-me pela língua”.

- PUB -

Todos eles praticam desporto: ela, atletismo; eles, futsal. Expressam que “antigamente, o trabalho na Câmara do Seixal era complicado, era-nos preciso muito esforço para colher qualquer informação de que precisávamos. Os nossos companheiros não se esforçavam lá muito, ou não sabiam o que fazer. Mas, desde há quatro ou cinco anos a esta parte, tudo se alterou profundamente neste capítulo. Até acham piada comunicar em mímica, seja numa reunião, no grupo de trabalho ou até no futebol”.

Diana concorda e acrescenta que “sim, há mais facilidade em oralizar, e isso sente-se principalmente no desporto, com os abraços e as comemorações. Aí há uma real confraternização”.

A Associação de Surdos do Concelho do Seixal existe desde 1999, e Diana, Paulo e Miguel ocupam cargos directivos nesta estrutura. “A nossa associação tem como fim promover convívios e encontros, procurando quebrar o isolamento social que afecta determinados associados. Organiza actividades ao ar livre, caminhadas pela montanha, entre outras acções. Isto funciona para preservar a saúde mental, promover o contacto com a sociedade e ultrapassar barreiras. É bom sentir que as pessoas se aproximam de nós!”, referem com entusiasmo.

O que interessa é o amor

Quanto ao relacionamento com as suas companheiras ou companheiros, Miguel Santos confessa que teve uma parceira ouvinte, “mas as coisas não correram da melhor maneira. Com a minha actual companheira, surda como eu, a vida é mais fácil”. Paulo Formiga contrapõe e garante “não” achar diferença. “O que interessa é haver amor e comunhão de interesses. A minha ex-mulher era ouvinte, embora soubesse língua gestual”.

No caso de Dina Oliveira teve uma ligação com um ouvinte, “mas sentíamos dificuldades de comunicação. Não correu bem, é claro. Não posso falar com base na experiência, porque só me liguei a sério com esse ouvinte”.

Um surdo é surdo, não surdo-mudo

Há língua gestual e não linguagem gestual. E um surdo é surdo, não surdo-mudo, como tantas vezes se houve e lê.

A Língua Gestual Portuguesa (LGP) tem origem na Língua Gestual Sueca e não na língua oral portuguesa.

“A estrutura da LGP é bem diferente da do português. A ordem natural da frase é sujeito-objecto-verbo ou objecto-sujeito-verbo. As frases interrogativas ou declarativas identificam-se com elementos não manuais, como o arquear das sobrancelhas ou movimento dos ombros, por exemplo”, explica a intérprete de Língua Gestual Portuguesa Teresa Miranda.

Por José Augusto

- PUB -

Mais populares

St. Peter’s: Investimento de 4,6 milhões abre a porta a mais de 200 alunos

Novo edifício projectado para Setembro de 2021 permitirá também ao colégio ter alunos em regime de internato Nas actuais instalações, na Volta da Pedra, Palmela,...

Investigador do Politécnico de Setúbal entre os mais citados em todo o mundo

O professor Vítor Pires é um dos 37 portugueses que integram a lista especial da Universidade de Stanford   Vítor Fernão Pires, docente da Escola Superior...

Denúncia de alegada fraude fiscal de Paulo Rodrigues seguiu para as Finanças

Em causa as comissões recebidas pelo agora presidente do Vitória quando era empresário.   O SETUBALENSE teve acesso à documentação remetida esta semana por um sócio...
- PUB -