Tributo ao cultivo

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Valdemar Lopes Santos

Carro moto-ciclo ou moto-triciclo ou carro de novo com a variante que melhor possa aprazer mereceu alguma interrogação entre convivas de um fim de tarde camponesa – isto mais para identificar locais de tempos absorvidos pela TV e seus anúncios do que para marcar onde se calejaram mãos despontadas dos fatos de ganga. Tinha-se de falar, nos Brejos do Assa, no Concelho de Palmela, da exemplar locomoção de Salvador Novo, 91 aninhos feitos entretanto, trotinete coberta de chapa metalúrgica. “Era o Chevrolet dele”, durante décadas.

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Nascera na área rural de Pegões, aderira ao Partido Comunista Português em 1976, permanentemente ligado ao cultivo terra. Por isso foi membro da Confederação Nacional da Agricultura e da Comissão da Agricultura da Organização Regional de Setúbal do PCP, para além das estruturas de direcção concelhias partidárias. Trabalhador ainda no Entreposto Industrial de Setúbal, onde integrou todas as lutas operárias, desde cedo, após o 25 de Abril, dinamizou a Comissão de Moradores da área da sua residência naqueles Brejos, e queira ou não queira ficará ligado para sempre em memória à criação, na base de reivindicações populares, da Creche e Infantário e de serviços públicos da saúde, como a Farmácia local, do movimento associativo e dos moradores. Porque a extrema humildade do seu caracter fez dele uma referência maior nas fileiras do Partido, entre trabalhadores e a população em geral, alguém se pôs a contar que tão ligeiro era o pé que punha no pedal até Palmela acima e em Palmela, pela Rua Contra-Almirante Jaime Afreixo, já a descer, até ao Centro de Trabalho do PCP, a meio caminho do Castelo donde em 1348 se fez fogueira (Almenara) para os lados de Lisboa de modo a assinalar, por parte do Condestável Nuno Álvares Pereira, que o Mestre de Avis podia avançar rumo à Libertação do País da ocupação espanhola – tão ligeiro era o pé que às reuniões do Partido era o primeiro a chegar.

Era o primeiro a chegar – desde logo, em particular no Inverno, era o que mais esperava no escuro por todos os outros, rentinho às paredes da porta que haveria de se abrir (nº 110).

Mas moveu-lhe o capricho do bom exemplo, de que ninguém chegasse atrasado, norma cívica sem exclusivos, e fez que tivesse aceitação o melhor remédio santo: semana sim, semana não – com “discussão da Ordem de Trabalhos, sujeita a votação, meia hora antes, às 20 e 30”, todos à lareira da sua casa, toca a andar. Sabia da poda. Estamos nos 99 anos do Partido. Era sobretudo nesta altura primaveril que a camaradagem pontual era premiada com castanhas assadas e água pé. «Assim chegaremos ao centenário». Quem havia de dizer!

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