Se faltam máscaras não vale a pena mascarar

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Francisco Alves Rito, director de O Setubalense

A informação, para não dizer a verdade, esteve entre as primeiras vítimas desta guerra. Modelo de comunicação sobre o Covid-19 é desadequado e pode ser perigoso

 

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Escrevemos há uns dias que as últimas semanas têm sido muito perigosas também para a verdade e expressámos dúvidas sobre a adequação das condutas adoptadas pelas autoridades relativamente à informação prestada sobre a pandemia em Portugal.

Voltamos ao tema para aprofundar um pouco mais, depois de ontem a Direcção Geral de Saúde (DGS) parecer vir dar-nos razão ao, finalmente, revelar o número de casos confirmados concelho a concelho.

Desde que a epidemia chegou ao país, a DGS chamou a si a divulgação dos dados, num modelo que gerou, nas demais entidades envolvidas, uma situação prática de ‘lei da rolha’ em que administrações regionais de saúde, hospitais, agrupamentos de centros, os diversos serviços regionais e locais de protecção civil, delegados de saúde e até a generalidade da autarquias, se coíbem de prestar informação. (Um parêntesis aqui para louvar a atitude do município de Setúbal e respectiva Protecção Civil que tiveram a coragem de ser dos primeiros do país a avançar com divulgação regular dos números do concelho).

O modelo, dizíamos na segunda-feira e reafirmamos agora, é desadequado, desnecessário e até perigoso. Desadequado porque, embora, revelada diariamente, a informação da DGS é insuficiente, uma vez que apresenta os casos repartidos apenas pelas cinco regiões (no Continente) e sem elementos muito úteis à prevenção como as cadeias de transmissão.

É desnecessário porque não há qualquer razão plausível, pelo menos aceitável, para este garrote na informação. Uma sociedade informada estará mais preparada para defender-se (basta lembrar que a ignorância foi a grande responsável pela propagação da peste negra).

Esta conduta é também perigosa, por ser contraproducente. Sem conhecimento da situação real do seu concelho, as pessoas podem continuar a achar que o vírus é uma ameaça distante. Veja-se que em Almada há pelo menos 31 casos e até ontem não se sabia. É óbvio que o conhecimento das cadeias de contaminação é igualmente muito útil, na mesma medida em que é perigoso o seu desconhecimento.

Confirma-se, com os números concelho a concelho revelados ontem pela DGS, que o modelo de comunicação é um dos grandes erros que podemos identificar já na resposta das autoridades nacionais a esta pandemia.

Por muito que custe a alguns a ideia de que todos possam ter noção exacta do que se está a passar, isso é importante. A informação é um valor em si mesma e um dos principais factores de preparação e combate.

Infelizmente a ideia de que não está a ser dita toda a verdade generalizou-se, ao ponto de a questão já ser colocada até directamente ao Presidente da República, como foi ontem, quando uma jornalista lhe perguntou se os números reflectem a realidade.

O momento não é para propaganda política, pelo que não adianta crer fazer passar a ideia que há aquilo que não existe ou tentar suavizar resultados e consequências.

De que serve, por exemplo, os hospitais não confirmarem que não dispõem de viseiras quando têm de as improvisar a partir de folhas de acetato? Se não há máscaras, testes, ventiladores, ou seja o que for, não vale a pena mascarar a realidade.

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