Vivemos no inferno?

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Francisco Cantanhede, professor

Ligo a televisão e vejo medo, vejo pânico, vejo caixões e mais caixões; pessoas que deixaram de o ser ao assaltarem estabelecimentos comerciais alimentares, ao apedrejarem idosos que mudam de lar devido ao vírus; leio jornais e são descritas cenas tenebrosas: idosos abandonados em lares, outros deitados ao lado de mortos; pessoas que deixaram de o ser ao entrarem em Portugal ilegalmente e contagiarem amigos e familiares. Vou às compras e não vejo pessoas; vejo vultos; uns viram a cara para o lado, outros usam máscara, alguns baixam a cabeça.

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Na televisão, na internet, vejo PESSOAS- anjos – que arriscam a vida para salvar vidas: todos os que trabalham na saúde, bombeiros, forças de segurança, os que nos garantem comida nas prateleiras dos supermercados… que exemplo extraordinário de amor ao próximo: o padre italiano que abdicou do ventilador- abdicou da vida- em benefício de um jovem, um religioso verdadeiro representante de Jesus Cristo na terra. Vejo as forças políticas unidas, como nunca aconteceu- com exceção do Chega- procurando contribuir para atenuar a desgraça. Vejo pessoas à janela e vejo um polícia a cantarem canções de esperança. Vejo, ouço e leio a verdade, graças ao trabalho de homens e mulheres que, preocupados com a pandemia da desinformação, da ignorância, da maldade, esclarecem, alertam, informam, dizem a verdade. Por vezes servem-se da boçalidade de líderes políticos como Trump e Bolsonaro para confrontarem as afirmações assassinas com a realidade. Até líderes religiosos apelam aos fiéis para continuarem a ir às igrejas, justificando que a fé cura, mata o vírus. Líderes religiosos que são também empresários de «sucesso» graças às «esmolas» desses mesmos fiéis. Volta Gil Vicente, tens tanta matéria para escrever novos autos; volta Dante, para descreveres novos infernos.
O vírus é mais poderoso do que o altruísmo de alguns e conduziu-nos ao inferno, onde vivemos? Não, não vivemos no inferno. No inferno viveram as crianças, as mulheres e os homens dos campos de concentração nazis! Quem lhes deu uma palavra de ânimo?
Ninguém. Quem lhes relatou a verdade? Ninguém. Quem os defendeu? Ninguém. Quem lhes cantou uma canção de esperança? Ninguém. Quem os salvou das violações, das torturas, da morte? Ninguém.

Caro leitor, por vezes, o que nos parece o inferno não é mais que um descarrilar da carruagem do bem-estar em que viajamos e que não valorizamos; insaciáveis, queremos sempre mais e mais, sem nos apercebermos de que outros, na realidade, vivem no inferno. Deixo-lhe alguns exemplos do inferno vivido nos campos de morte nazis, excertos do livro Contai aos vossos filhos…«As crianças de pouca idade eram sempre enviadas para a morte, nas câmaras de gás, visto que não podiam trabalhar»…«Ao longo de todo o inverno obrigaram criancinhas pequenas, totalmente nuas e descalças, a aguardar ao frio, horas a fio, a vez de entrar nas câmaras de gás. As plantas dos pés ficam geladas e colam-se ao chão. De pé, a chorar, algumas morrem de frio. Um dos alemães era um animal repugnante e sanguinário, que se divertia a torturar crianças.

Quando maltratava mulheres e elas lhe imploravam que parasse porque tinham crianças ao colo, ele muitas vezes arrancava-lhas dos braços e ora as partia em duas metades, ora as agarrava pelas pernas e batia-lhes com a cabeça na parede, para depois atirar para longe os corpos.».

Apesar da dor do momento, viva a liberdade, a igualdade e a fraternidade; viva a democracia, o regime da felicidade. Voltaremos a cantar, a abraçar, a beijar, a amar, e, talvez, mais despertos para respeitar a natureza.

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