Dar à luz em tempo de pandemia

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Cristina Rodrigues - Deputada do Grupo Parlamentar PAN, eleita pelo círculo de Setúbal

“A forma mais eficaz de transformar o homem num “superpredador”, é interferir na relação entre a mãe e o recém-nascido.” ~ Michel Odent

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Dar à luz nos países ocidentais, na maioria dos casos tem riscos mínimos associados, embora não inexistentes. Contudo, nesta fase de pandemia em que tudo parece incerto e todas as informações nos chegam a conta-gotas, há angústias e inquietações adicionais para quem está prestes a ser mãe.

No dia 18 de Março, a Organização Mundial da Saúde disponibilizou recomendações específicas sobre a Covid-19 e a gravidez, parto e aleitamento materno, dando o ênfase habitual à necessidade que esta seja uma experiência segura e positiva. O contacto físico entre mãe e filho, a livre escolha de amamentar mesmo que em caso positivo de infecção, e o direito a um acompanhante da sua escolha presente durante o parto são algumas das suas orientações que importa destacar pois no nosso país têm gerado alguma controvérsia.

De facto, a nossa Ordem dos Médicos tem defendido precisamente o oposto: além de não recomendar a partilha do quarto entre mãe e filho, no caso da grávida estar infectada, o bebé deve ainda ficar afastado da mãe, no mínimo 14 dias; posto em causa, é também o acompanhante durante o parto, haja ou não infecção confirmada, pois quantas mais pessoas estiverem presentes na sala mais riscos de contaminação existem, argumenta-se.

Já a Direcção Geral de Saúde recomenda uma “avaliação médica caso a caso”, embora referindo a necessidade “que as instituições de saúde tomem decisões individualizadas, tendo em conta a vontade da mãe, as instalações disponíveis no hospital e a disponibilidade das equipas de saúde”.

Assim, se por um lado, há quem defenda a aplicação radical destas medidas de contenção em qualquer tipo de cenário – existem já vários relatos de partos sem acompanhante mesmo em caso de grávidas saudáveis, justificados pela impossibilidade de se testar todos os envolvidos -, por outro há quem acredite que perante a inexistência de evidências de transmissão, quer vertical entre a grávida e o bebé, quer durante o parto vaginal ou mesmo na amamentação, não faz sentido aplicá-las.

Pessoalmente, penso que há necessidade de ponderar mais seriamente sobre o assunto: será que devemos pensar a saúde materna de uma forma estritamente racional? Não devemos, antes de mais, reconhecer a violência do afastamento do bebé e da sua mãe – que esperou nove meses, e às vezes anos!, para ter o seu filho nos braços – e fazer os possíveis para minorar os riscos e permitir este contacto tão essencial entre ambos?

Importa, sem dúvida, garantir a saúde física da mãe, do bébe e da família, mas não podemos deixar de parte as dimensões psicológica e emocional, além da salvaguarda dos direitos da mulher na gravidez e no parto. E é aqui que reside o desafio!

 

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