Caminhando de novo nos Continentes

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Valdemar Lopes Santos

Em tempos fáceis de adivinhar, dois jovens perdidos na noite dos Pirinéus entre Oyarzun e o Bidassoa arriscaram bater à porta de uma casa de camponeses, sem saberem se chegavam a bom porto. Apareceram-lhes dois idosos e dois filhos de idade madura, deram-lhes abrigo, mas à pergunta que lhes dirigiram, sem que tal correspondesse a uma senha (aliás, nas circunstâncias, nunca poderia ser uma senha): “Como está Dolores Ibarruri?”, murmuraram com uma frieza seca cortante: “Não conhecemos”.

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Poderia ser – mas não – a Espanha o país dos golpes profundos, se se aliar a este episódio uma posterior deslocação algo romântica a Viznar, terra da Andaluzia onde Federico Garcia de Lorca foi assassinado pelos fascistas. Igualmente em pleno período franquista, numa trôpega tarde de calor que na rua mantinha apenas, na soleira de uma porta, outros dois idosos, a estes foi inquirido onde poderia ser visitado o local do crime, “o local onde mataram Federico Garcia de Lorca” – mas a resposta pareceu ser a mesma, como se não houvesse “El Barranco”: “Não está, foi para França”.

Compreender-se-á o sentimento de reconciliação de certo modo sentido há anos numas Festas Populares do Seixal, no Pavilhão da Câmara Municipal, dedicadas à solidariedade com Cuba contra o criminoso bloqueio dos Estados Unidos, onde um cartaz editado em San Sebastian, escrito em basco (arriscamos: “kuba gabe ezer ez litzateke berdina izango”), aparentemente ambíguo na sua tradução à letra: “Sem Cuba, nada seria igual!”, transmitia afinal o último sentido de uma convicção profundamente comunista, a saber: “Sem Cuba, o Mundo seria pior!”

É, efectivamente, para nós exemplar que um pequeno povo se bata tão longamente pela sua independência na construção do socialismo que escolheu, sob a constante ameaça do imperialismo que em qualquer parte do globo não hesita em intervir ou mandar intervir. Mas aquela mensagem adquiria ainda outra força: alinhava-se à sua maneira contra o anátema projectado sobre os comunistas portugueses sob a forma de uma pérfida pergunta, nutrida pelos primeiros indícios do desmoronamento da União Soviética e do bloco socialista na Europa: “Estás com Cuba, estás com o regime, estás com Fidel?”.

Mas à qual eles respondiam:
– “Sim, estamos com a Revolução!”.

Os conflitos regionais arrastados há décadas em praticamente todos os continentes, tornando o mundo sempre mais inseguro do que nunca, trazendo até perto da nossa porta a guerra, arremessando homens contra homens sob o fulgor dos mísseis ou do confronto político da exploração de classe, dir-se-á que confirmam uma profecia de André Malraux, um combatente da República Espanhola cuja evolução política se saldou numa certa regressão ideológica: o século XX acabaria por ser – sentenciou – o século dos nacionalismos.

Contra aquela profecia, sem se estar contra Malraux, a solidariedade internacionalista dos comunistas ganha cada vez mais razão e sentido histórico

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