500 Palavras: O homem que contou a peste

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João Reis Ribeiro

“Na manhã do dia 16 de Abril, o doutor Bernard Rieux saiu do seu consultório e tropeçou num rato morto, no meio do patamar. Nesse momento, afastou o bicho sem lhe prestar atenção e desceu a escada.” Estamos num ano da década de 1940, na cidade argelina de Oran, no arranque da história que Albert Camus conta na obra “A peste” (Lisboa: Livros do Brasil), de 1947.

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Quem relata a acção vive na cidade e é muito próximo do médico Rieux e dos seus amigos, não se envolvendo nos casos apresentados. Percebe o leitor, no final, se o não suspeitou ao longo do romance, que o cronista é o mesmo Rieux, que “quis tomar o tom de testemunha objectiva” ao longo do relato.

Tudo acontece em dez meses, período que levou a cidade, dominada pela peste bubónica, ao isolamento, vidas fortemente condicionadas, um quase estado de sítio – as personagens “experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados que vivem com uma memória que não serve para nada”, num espaço confinado que, “se era o exílio, na maior parte dos casos era o exílio em casa.” A Rieux, pela profissão que exercia, não lhe restou “senão conhecer o exílio de toda a gente”: o tempo da diferença – cortejos fúnebres suprimidos, desorganização da “vida económica e número considerável de desempregados”, relações sociais reduzidas ao impensável, derrota das crenças e das súplicas, choros e pesares sem fim, ausência de futuro, a condição humana. Num mundo em desmoronamento, Tarrou, amigo de Rieux (e que com ele agiria na assistência à comunidade), questiona o médico sobre o sentido da sua profissão – a resposta tem a humildade e a simplicidade do tamanho do ser humano: “Não sei o que me espera nem o que há de vir depois de tudo isto. Para já, há doentes e é preciso curá-los. Defendo-os como posso, aí está.”

Bem próximo do final, há personagens que discutem a mudança pós-flagelo, ficando-se pela incógnita: “O mais forte desejo dos nossos concidadãos era e seria fazer como se nada tivesse mudado – nada, em certo sentido, seria mudado, mas, noutro sentido, não se pode esquecer tudo e a peste deixaria vestígios, pelo menos nos corações.”

Camus viveu em Oran (de onde era sua mulher) entre 1941 e 1942. Depois, regressou a França, para território que seria ocupado pelos invasores alemães. “A peste”, relatando uma epidemia que não aconteceu, é uma reflexão sobre o Mal (que ninguém está preparado para receber), uma alegoria sobre o crescimento e efeitos do nazismo. Por isso, Rieux (que acudiu à sua comunidade e perdeu os mais próximos), perante a alegria dos conterrâneos aquando do fim da peste (equivalente ao período da libertação), que podia ser ameaçada, pensa, a fechar o livro: “o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada” e poderia vir “talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.”

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