Alimento para a Alma

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Cristina Rodrigues - Deputada não inscrita

Em épocas de crise, as primeiras baixas são habitualmente nos sectores que não entendemos como produtores de bens ou serviços essenciais. No nosso país, a Cultura é, sem dúvida, um desses sectores.

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De facto, em diversos Eurobarómetros dedicados a este sector, Portugal aparece invariavelmente com números reduzidos quando se fala de participação em actividades culturais. No relatório de 2017, só 17% dos inquiridos referiu deslocações regulares a museus, monumentos, festivais e concertos, sendo que para 45% dessas pessoas o motivo da pouca adesão a este tipo de actividades seria mesmo falta de interesse.

Numa sociedade (ainda) tão ligada aos aspectos materiais, na qual o dinheiro e os ganhos financeiros parecem ser os únicos valores inquestionáveis, a Cultura tem sido um parente pobre, deixado no final da linha, quer a nível da importância quer dos investimentos. E numa perspectiva puramente materialista, como conseguimos quantificar os benefícios da Cultura? E sem serem quantificados, como dar-lhes uma classificação de valor concreto?

Diversas personalidades ligadas à área defendem que falta estimular o ensino cultural nas escolas e acreditam que os decisores políticos e a sociedade em geral deveriam olhar para a Cultura como um bem essencial.

No entanto, o investimento do governo na área continua a ser uma reivindicação com resultados muito aquém do desejado. No final do ano passado, centenas de entidades, artistas e agentes culturais manifestaram-se por todo o país no sentido de obter a alocação de 1% do Orçamento de Estado de 2020. O sector viu-lhe ser alocado pouco mais de metade: 0,55%! E isto antes da crise da COVID-19 se instalar, e antes de as centenas de iniciativas agendadas para esta altura do ano e futuro próximo ficarem adiadas para data incerta ou mesmo canceladas…

Curiosamente, porém, este é um óptimo momento para se reflectir sobre a importância da expressão artística e cultural. Repare-se: estamos há um mês em isolamento social, faz-nos falta a família, os amigos, os passeios, enfim, a liberdade para nos movimentarmos e estarmos onde e com quem entendermos. As únicas “portas” que podemos abrir e atravessar livremente são aquelas que nos permitem viajar sem sair do lugar: a música, os livros, os filmes, as fotografias, os quadros…

Muito se tem dito sobre a COVID-19 ser uma mensagem da Natureza, chamando a atenção para a urgência da mudança de paradigma e da forma como vivemos às custas do Planeta e dos seus recursos finitos. Acredito que este exercício, transversal a todos os sectores é certo, ganha uma nova dimensão se visto à luz da Cultura. Se a produção de bens materiais necessita de recursos finitos, transformando-os e esgotando-os na maior parte dos casos, já a produção cultural alimenta-se a si mesma pois resulta invariavelmente num enriquecimento interno de quem cria e de quem consome, numa espiral de transformação ilimitada. E se os bens materiais alimentam o “corpo”, a Cultura alimentará a Alma. Talvez seja mesmo disso que estamos a precisar!

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