Não há sinal de reflexão nos nossos caminhos

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José Augusto

Nas poucas vezes que saímos à rua, sem contrariar as recomendações das autoridades sanitárias e as imposições civis, apenas para dar resolução a necessidades de natureza pessoal ou familiar, deparamos com quadros que roçam a bizarria ou, pelo menos, que não encaixam na ideia que construímos do quotidiano de uma sociedade com modos, hábitos e rotinas arreigados.

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Comecemos pelo aspecto das pessoas. Os homens andam de cabelo mais comprido, muitos de barba por fazer, um certo desleixo no trajar, um certo enfado no dizer. É claro que, neste tempo de confinamento, escasseia-nos espaço para estendermos as nossas opiniões, que abrangem quase todas as áreas do saber. Reza o ditado que de “médico e de louco todos temos um pouco”. Se actualizássemos o aforismo, atendendo aos tempos que correm, todos teríamos um pouco de muitas mais especialidades.

Depois, falta-nos o futebol, os programas televisivos de futebol, as conversas e discussões à roda do futebol, as polémicas, as falhas dos árbitros, as asneiradas dos dirigentes, as argumentações einsteinianas dos técnicos, as acusações e insultos dos adeptos, a ignorante tendência dos comentadores… E nas nossas caras estão chapadas a preocupação pandémica e a frustração futebolística. Por isso, caminhamos macambúzios quando temos de sair à rua e exultamos desenfreadamente quando encontramos um amigo.

Quanto às mulheres, parece terem-se adaptado melhor à crise viral. A sua resistência ao padecimento é superior ao do homem, porque assim quis a vida que fosse ao longe dos séculos. Ainda que deixem transparecer poalhas de preocupação, pisam o chão com mais coragem e olham ao longe com mais confiança. Forçadas a dispensar as artes do cabeleireiro e os segredos da manicure, continuam a movimentar-se com a certeza dos passos  e provocar devaneios, como sempre aconteceu desde o delicioso incidente no Éden.

O comércio está fechado, salvo o que é estritamente necessário ao funcionamento dos serviços essenciais ou à sobrevivência do ser humano. Mesmo assim, certos estabelecimentos servem café num copinho de cartão prensado ou de plástico, que temos de beber a pé, afastados de qualquer convivência. A pé, meu Deus?! Um café sem mesa para estar à volta não merece o nome que tem, nem tem o paladar que lhe deu fama. Enfim, um atentado, este premeditado, ao vício mais democrático das mulheres e dos homens portugueses de todas as classes.

Ao vermos o vaivém das pessoas e da circulação dos carros, poderíamos pensar que este estado de excepção serviria para os condutores adquirirem bons e novos hábitos, como fazer pisca, sempre que mudam de direcção, ou estacionarem no lugar que lhes foi reservado para o efeito. Vã esperança! Apenas moderaram a velocidade para apreciarem o conforto de manobrarem por faixas quase desertas e admirarem, porventura, pela primeira vez, a tranquilidade de uma paisagem urbana, antes desconhecida e com a qual parecem agora simpatizar.

Aquilo a que chamamos normalidade voltará, embora sem dia marcado. E a vida retomará o seu curso. E, então, logo nos arrependeremos de não termos aproveitado este presente para reflectirmos, apenas reflectirmos. Haverá na sinalização dos nossos caminhos um sinal que a isso nos obrigue? Claro que não.

Por José Augusto

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