Ainda reflectindo sobre a pandemia

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Mário Moura - Médico

Eu faço um esforço para não falar na pandemia, mas é um desejo impossível pois toda a imprensa escrita e, em especial as televisões, não nos dão descanso com os números dos infetados, o numero dos falecidos, mais os números dos que estão ligados a apoios respiratórios – e dizem-nos, dos países desde o norte da Europa até ao sul do planeta e nos países que vão do ocidente até ao orienta. E o mais dramático é que isso se passa na quase totalidade dos canais e…pior ainda, repetindo as mesmas noticias e imagens na quase totalidade dos noticiários da manhã à noite. Vão ao cúmulo de nos mostrarem as filas de caixões, as imagens dos cemitérios e – ou loucura!!- as valas comuns necessárias em muitos dos países. É mórbido! É angustiante! É depressivo!

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Tudo isto a juntar à monotonia das semanas de confinamento a que a maioria de nós somos obrigados. Bem começam psicólogos ou psiquiatras a darem tímidas informações em como tal exagero está a provocar depressões e outros tipos de descompensações psíquicas e introduzindo um outro terrível vírus que é O MEDO! E ainda há outro requinte nesses noticiários, é que em nome de técnicos de variada natureza, a maneira como são considerados os idosos, na nossa sociedade em que são muito numerosos, já que somos uma das populações mais envelhecidas na Europa , eles são um empecilho.

E as opiniões dão a atender o peso que são os idosos para a sociedade e, em especial a sobrecarga que são para os serviços de saúde, veem juntar-se ao tal vírus do MEDO. Como deve sentir-se uma pessoa como eu que já passei dos 90 anos? Será que já nada posso fazer pela nossa sociedade? Será que toda uma vida gasta em prol da sociedade não tem qualquer valor? Que pensarão os jovens “afogados” neste ambiente informativo? A classe dos políticos, dos grandes decisores dos problemas gravíssimos em que esta pandemia vai deixar o mundo, onde a pobreza vai multiplicar-se por um fator enorme, onde a “máquina produtiva” dificilmente irá voltar ao seu rendimento aceitável, onde o capitalismo que impera na nossa atual sociedade vai ter de fazer esforços inauditos para readquirir a sua posição dominante, será que todos prescindem dos mais velhos, da sua sabedoria adquirida pela vida longa ao serviço dos outros?

E não podemos esquecer que a pandemia ainda não foi vencida, que o vírus pode regressar em segunda onda, que sem pandemia a nossa sociedade estava já ser alvo de fortes críticas e até reações violentas por aumentar o fosso entre ricos e pobres, por ser uma sociedade violenta e por multinacionais produtoras de armas, ou distribuidoras de produtos químicos, terem posição privilegiada – e que por tudo isto a sociedade que tem de ser reconstruída desde os seus alicerces não pode ser igual à que estamos vivendo. E será a juventude a lutar por uma sociedade nova onde impere a justiça, a fraternidade e a solidariedade, e para tal necessitará da experiência e da sabedoria dos seniores que presentemente parece estarem a ser excluídos.

É curioso como as sociedades ditas menos civilizadas, lá para o centro de África, ou nas sociedades orientais, têm uma consideração – e quase veneração – pelos seus idosos. E nós ocidentais, senhores da ciência e da tecnologia, parece estarem centrifugando para as periferias os seniores ! – Será que toda a gente sabe que a doença de Alzheimer cresce nos países que dizemos mais civilizados e é quase inexistente nas tribos africanas? Os idosos mantêm as tradições e são verdadeiras “torres do Tombo” onde se guardam os valores e a história passada – alicerces da que temos de reconstruir.

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