Eles não gostam

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Juvenal José Cordeiro Danado - Professor

Abril é-lhes penoso. Não gostam do 25, nem do «Grândola vila morena». Irrita-os, saem do sério, destrambelham de todo. A praia deles era mais o 24, a bela época dos coronéis dos lápis azuis, dos esbirros à coca, do Aljube e de Caxias e de Peniche e do Tarrafal, das paradas do 10 de junho e do pregar medalhas ao peito das mães e pais consumidos de desgosto ou dos inocentes órfãos dos soldados tombados em África. Ah, Cavaco amigo, que saudades da tua sobranceria, do teu desprezo pela data maldita!

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São gostos. Cada qual tem o direito de ter os seus, desde que os não queira impor aos outros e à maioria. E o dia de que não gostam é uma data histórica muito cara à esmagadora maioria da nação (terão dúvidas?) e marca um acontecimento que atravessou o mar e fez a felicidade de outros povos, que o comemoram com alegria – o perfume dos cravos alcançou o Brasil, de onde pediram, e voltam a pedir, que mandemos um cheirinho de alecrim, que tanta falta lá faz.

Sustentam que abrir portas à Assembleia da República para comemorar abril foi um erro. Ela tem funcionado para as discussões e aprovações necessárias, cheia de gente, e ninguém falou em perigos de contágio da peste. Mas no dia 25, umas dúzias, a prudentes distâncias uns dos outros, que bem vimos, já seria um problema dos diabos.

Se os portugueses estão em isolamento, as comemorações na AR não faziam sentido, farfalharam. Mas não é lá que estão os nossos representantes, aqueles a quem cabe comemorar por todos nós? O Presidente é que lhas cantou. E bem cantadas.

Não vão aos supermercados, os maldispostos com a cerimónia do Parlamento. Não sabem como se anda sem máscara e sem luvas, como são descuidados e se atropelam os consumidores uns aos outros, a despeito das medidas de segurança adotadas e dos conselhos constantemente anunciados nesses estabelecimentos comerciais.

O problema deles é outro, a gente está farta se saber. Costumam exibir o cravo na lapela, os falsos. Para inglês ver. Porque não ficava bem que o não fizessem. Porque simular a defesa da liberdade política e das liberdades fundamentais é politicamente correto, dá jeito e amealha votos. Tiveram que aderir ao cravo, mas o que aquilo os confrange, e o quanto lhes é custoso não viverem num regime de mandantes que decidem como lhes dá na veneta e no maior dos desprezos pelo povo! Quem lhes dera um Trump, um Bolsonaro, um Orbán ou qualquer outro alarve autoritário, daqueles que não revelam metade daquilo ao que vão, nas campanhas capciosas, e levam à certa eleitores desprevenidos, com prometimentos de vãs farturas, de felicidades de paraíso e de liberdades em que não creem e que detestam.

Vem o 1º de maio. Também não gostam. É outra data que os enfastia (mais vermelho, mais povo a dizer dos seus direitos e de seus anseios, uma chatice), mas que não deixaremos de comemorar – com as cautelas que a Covid requer, obviamente. Chá de hortelã alivia os incómodos do estômago e do fígado. Que o tomem, os agoniados.

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