Colares

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Vanessa Silva

Einstein dizia que:”Ciência sem espiritualidade fica cega. E Espiritualidade sem ciência é superstição”.

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Não encontrei melhor aforismo para ilustrar o vinho de Colares. Só uma fé cega ou um sentimento de obstinada religiosidade cósmica é que justifica a sua existência. Quem no seu perfeito juízo, iria incorrer na mais terrifica e inglória missão de produzir vinho na região mais improdutiva e inóspita de todo o nosso planeta lusitano?

No entanto, um facto curioso é que a produção do vinho de colares remonta à mais alta antiguidade. No foral afonsino de Sintra (1154) consta que se cultivava vinho nesta região no século I a.c. Vários documentos comprovam a predilecção dos nossos reis por este especial cantinho da Lusitânia.

De tal forma que o vinho de Colares impôs-se, fazendo dele o primeiro vinho de mesa nacional. A sua fama e grandiloquência faz com que seja capaz de competir com os melhores do mundo. Parece um contrassenso, o vinho do Colares ostenta esta incrível ambivalência: é ao mesmo tempo, considerado um emblema nacional e é o vinho mais cosmopolita que temos a honra e o privilégio de exibir entre os afamados afrancesados.
Tal como a grande Raça dos navegadores portugueses que partiram em busca de uma índia nova, que não existe no espaço que serão construídas «daquilo de que os sonhos são feitos». Os grandes aventureiros heroicos viticultores, enfrentaram o terrível “adamastor” dos vinhedos, resistiram à fúria dos ventos marítimos, e ao poder causticante do sal, às constantes neblinas, e ainda tiveram de desbravar terreno, mergulhar a vários metros de profundidade do solo, escavar trincheiras, abrigá-las do vento, elevar cada cacho, e suportar a terrível vaga das maturações lentas para depois esperar pacientemente, que delas caísse uma lágrima distraída. Um trabalho inclemente e insano, para uma rentabilidade tão baixa.

Este vinho único que nasce a partir da videira que lhe dá vida, é mais do que uma irrefutável supremacia, assume uma verdadeira “causa nacional”! É a joia da nossa coroa! Cada gole é um sopro de outros tempos, cada garrafa, representa um património muito especial, uma autêntica peça de colecção.

Uma engraçada coincidência, é que terá sido a Viuva Gomes de 1996 a Sra. eleita para o meu ritual iniciático neste interminável labiríntico mundo dos vinhos. A partir deste fatídico momento, nunca mais consegui voltar ao mundo antes do vinho: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Um conselho aos pais deste mundo, se não quiserem que os vossos filhos caiam na armadilha deste traiçoeiro mundo de Baco, nunca lhes acenem com um Ramisquinho.

Vinho do Colares, é o mais feliz paradoxo que conheço. Um berço tão agreste, inóspito e adverso, é capaz de fazer nascer vinhos brilhantes, de uma elegância e finura superiores, cheios de delicadeza com aquela austeridade que os caracteriza, ou seja vinhos com uma rusticidade tão elegante. São vinhos terrosos, salinos, pouco alcoólicos, que escapa as modas e tendências. Lá está, um vinho que não está ao nível de qualquer paladar!
Em tempos de incerteza, nada melhor do que beber um vinho de natureza incerta!

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