Os destroços da pandemia

8
visualizações
Mário Moura - Médico

Por toda a Europa vai um grande afã para tentar minorar os efeitos sociais e económicos da pandemia do coronavírus. Ora, já aqui nestes comentários posemos em destaque o conflito existente entre suster os efeitos da covid19 sobre a saúde e o número de mortes, e os efeitos das medidas de contenção sobre a vida económica dos países – e dissemos duma maneira crua que se estava num dilema entre a vida saudável e a fome e a pobreza das camadas mais baixas da sociedade.

- Pub -

E ao entrarmos num período de maior desconfinamento aliviando com razoável rapidez a paragem radical da indústria e do comércio, coloca-se a responsabilidade de evitar os destroços da pandemia, no comportamento dos cidadãos cansados da prisão domiciliária e do aumento progressivo das famílias sem quaisquer recursos para a sua sobrevivência. E em vários países sucedem-se manifestações pedindo a anulação das restrições.

Animados também por certos políticos que apenas pensam na produção de bens. Mas na realidade estamos assistindo a um verdadeiro tsunami que vai deixando pelo caminho uma paisagem de destroços. Bem se empenham os governantes em definir regras muito estreitas para tentar que a tal abertura faça o mínimo de estragos. E limita-se a entrada de pessoas nas lojas, exigem-se rigorosas e frequentes medidas de limpeza, torna-se obrigatório que se use máscaras seja nos transportes seja no interior das lojas. Um conjunto de exigências que são muito difíceis de por em execução. E mesmo com todas essas precauções todos vivemos na expectativa do comportamento do coronavírus.

Nunca tantos cientistas trabalharam em conjunto para conhecerem bem o agressor, para conseguirem medicamentos eficientes ou uma vacina que nos tornasse imunes – mas as opiniões são tantas como as incertezas sobre o “bicho” agressor. – estamos mesmo perante uma ameaça profunda ás nossas vidas e aos nossos costumes.. E abundam as opiniões que querem aproveitar esta sociedade destroçada e aproveitar esta oportunidade para tentar construir uma sociedade diferente, uma sociedade nova que corrija os defeitos já diagnosticados da sociedade em que temos vivído.

Todos temos de adquirir novos hábitos de vida e todos temos de tirar deste período de restrições o que na realidade tem valor. A vida trepidante que era a característica do nosso modo de vida tem de ser substituída por períodos dedicados ao descanso e à convivência familiar. Todos temos de valorizar o contacto pele com pele no aperto de mão e no abraço que traduzem o afeto que temos para com o nosso próximo. Todos temos de dar o devido valor à beleza da natureza com os seus odores e com as policromias das flores e dos verdes. Todos temos de compreender o que vale a nossa vida evitando tudo o que a destrói e faz adoecer.Sabemos que esta preocupação do desconfinamento é orientada pela necessidade de produzir coisas para a sociedade de consumo que se traduz no lucro de quem investe o capital – e é altura de reconhecermos que consumimos em excesso e que deitamos fora bens que fazem falta noutros lugares onde predomina a miséria e a fome, e que com esses excessos produzimos detritos e resíduos que temos depois de tratar ou eliminar. E temos neste momento em que somos autorizados a tomar iniciativas, temos que pensar que a vida dos outros também depende dos nossos comportamentos e hábitos – o nosso egoísmo tem de ser substituído por uma preocupação solidária com os outros nossos irmãos.

Temos de aproveitar para construirmos sobre os destroços da sociedade velha uma sociedade nova, fraterna e preocupada com a natureza que está nos limites da habitabilidade pelos nossos exageros de exploração . Vamos renovar os nossos comportamentos.

Comentários

- Pub -