Pão e Trabalho

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Joana Mortágua, deputada do Bloco de Esquerda

“Anteontem, numa questão entre trabalhadores rurais, ocorrida numa propriedade agrícola próximo de Baleizão, e para a qual foi pedida a intervenção da G.N.R. de Beja, foi atingida a tiro Catarina Efigénia Sabino, de 28 anos, casada com António do Carmo, cantoneiro em Quintos. Conduzida ao hospital de Beja, chegou ali já cadáver. A morte foi provocada pela pistola-metralhadora do sr. Tenente Carrajola, que comandava a força da G.N.R. No momento em que foi atingida, a infeliz mulher tinha ao colo um filhinho, que ficou ferido, em resultado da queda. A Catarina Efigénia tinha mais dois filhos de tenra idade e estava em vésperas de ser novamente mãe. O funeral realizou-se ontem, saindo do hospital de Beja para o cemitério de Quintos. Centenas de pessoas vieram de Baleizão para acompanharem o préstito, verificando-se impressionantes cenas de dor e de desespero. Segundo nos consta, o oficial causador da tragédia foi mandado apresentar em Évora.”
— Diário do Alentejo, 21 de Maio de 1954, com uma falsa referência à sua gravidez

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Na verdade, o oficial “causador da tragédia” nunca foi a julgamento e foi transferido para Aljustrel onde morreu de morte natural. Ao funeral, feito à pressa pelas autoridades, acudiu uma multidão em protesto que foi dispersa à bastonada, incluindo a família de Catarina, e nove camponeses foram presos.

Catarina, assim, só Catarina, ficaria na história como uma heroína dos trabalhadores rurais, um exemplo mulheres que lutaram e tantas vezes foram invisibilizadas ou esquecidas. Porquê? Porque morreu a pedir pão e trabalho. E há regimes em que ser pobre é um dos piores crimes, só comparável ao crime de lutar para o deixar de ser.
Catarina fora escolhida pelas suas colegas para apresentar as suas reivindicações no latifúndio: dois escudos por jornada. O feitor, amedrontado, mandou chamar o patrão e a guarda. A uma pergunta do tenente da guarda, Catarina terá respondido que só queriam “trabalho e pão”. Como resposta teve um murro que a derrubou. Ao levantar-se, terá dito: “Já agora mate-me.” O tenente da guarda disparou três balas.

No dia 19 de Maio de 1954 Catarina foi assassinada. O seu corpo só voltaria a Baleizão depois do 25 de abril, onde a campa de Catarina é visitada todos os anos por aqueles que não esquecem e não perdoam a quem a matou.

No meio das tragédias, como esta que nos aconteceu, é bom lembrar onde estão as nossas raízes. Não deixar de celebrar o 25 de abril, o 1º de maio, a luta de Catarina. Não deixar de lutar, porque mesmo nas tragédias naturais há classes, desigualdades, injustiça. Nunca perder a identificação, porque se o marido não tivesse sido despedido da CUF no Barreiro, Catarina não seria ceifeira naquele momento. Porque a luta por mais dois escudos de salário não terminou e há por aí tantas Catarinas.

No aniversário da morte de Catarina, deixo uma homenagem. Ao Alentejo, chão de tantos de nós, que continua (intensivamente) esquecido. Às mulheres que lutam tendo tudo contra elas, até o esquecimento. A todos os trabalhadores que que lutam por pão e trabalho.

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