O estranho silêncio das autarquias e empresas do distrito perante as dificuldades d’O Setubalense

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Manuel Henrique Figueira - Munícipe de Palmela

Caro leitor, o país vive tempos muito difíceis e o futuro não parece ser tranquilizador. Toda a actividade do país está a ser fortemente afectada. Até os sectores não activos (como o dos reformados e outros beneficiários de rendimentos dos sistemas de apoio social) parece não terem razões para estar tranquilos perante o futuro. Só há uma certeza: não haverá austeridade até ao dia em que a realidade a impuser generalizadamente, as centenas de milhares de trabalhadores em «layoff», que estão a perder um terço do rendimento, sabem-no melhor do que ninguém que ainda não há austeridade nos discursos, mas já a sentem bem na pele.

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Agora vou falar das dificuldades por que está a passar «O Setubalense» e da campanha de «crowdfunding» em curso até às dezoito horas do dia dois de Junho. Visa angariar trinta mil euros, o valor mínimo para garantir a publicação em Abril e Maio, apesar de, nestes dois meses, em tempos normais, o jornal ter uma despesa de funcionamento de oitenta mil euros. Ao lançar a campanha, previa-se que estes fossem os piores meses da pandemia: a realidade parece desmentir a previsão.

Na Sexta-feira passada faltavam ainda cerca de seis mil euros para os trinta mil desejados e os donativos no segundo mês parece indiciar que o universo dos leitores, e de outros amigos do jornal dispostos a colaborar, está em vias de se esgotar, dificultando a continuidade da publicação.

O que vou dizer agora sobre as treze Câmaras Municipais, as cinquenta e cinco Freguesias e as centenas de empresas de um distrito fortemente industrial (muitas das quais são já históricas e emblemáticas, confundindo-se com a identidade do território que elas ajudaram a construir), provém apenas do que observo publicamente, correndo o risco de, eventualmente, não corresponder totalmente à verdade. Não tenho informação privilegiada por parte do jornal sobre eventuais compromissos que tenham assumido e que não sejam públicos. Contudo, parece-me haver um estranho silêncio da esmagadora maioria destas entidades perante as dificuldades de um jornal que é, também ele, uma peça fundamental da identidade de Setúbal, da sua Península e, agora, cada vez mais de todo o distrito.

Todos sabemos que as necessidades são muitas e os recursos escassos: as empresas vêem com apreensão o futuro, desta vez não têm a escapatória dos mercados estrangeiros porque a crise é global: mas não poderão analisar melhor a ajuda que se lhes pede? E as autarquias vêem crescer os pedidos de apoio vindos um pouco de todo o lado, elas são a porta amiga aberta para a qual olha quem necessita: mas o que se lhes pede neste caso é insignificante, faltam apenas seis mil euros, o que, divididos por sessenta e oito Câmaras e Freguesias dá menos de cem euros a cada uma.

Trata-se de ajudar o mais antigo jornal do Continente em publicação, fundado há cento e sessenta e cinco anos, que foi o porta-voz de gerações de cidadãos e instituições da região. E que hoje, a principal crítica que se lhe pode fazer é a, eventual, excessiva colagem à comunicação institucional das actividades das autarquias, relatadas diariamente nas suas páginas e ocupando quase a sua totalidade. Todos os dias autarcas e os seus gabinetes de comunicação produzem notícias sobre a sua imprescindível acção e os seus territórios e gentes que o jornal relata, tal como faz com o êxito (tantas vezes internacional) de muitas empresas (por exemplo, as do pujante sector vinícola). Portanto, boa parte do seu conteúdo é publicidade institucional não paga (até dedica especial atenção a cinco Câmaras: Setúbal, Palmela, Barreiro, Moita e Montijo, que têm especial destaque, uma em cada dia da semana).

A importância dos jornais, e d’«O Setubalense», em particular, mede-se no dia-a-dia desta comunicação que acabei de referir, que as autarquias não só não recusam como alimentam. A qual não tem paralelo na difusão na rede capilar social que atinge, ao contrário dos Boletins Informativos Municipais (que a maioria dos munícipes tirava das caixas do correio e punha no lixo sem os abrir), os quais custavam muito mais do que o apoio que agora é devido a «O Setubalense».

A melhor medida desta importância é a que o tempo histórico filtra ao longo das décadas, e que, no próximo dia um de Julho o livro «Setúbal no centro do mundo: 165 anos de “O Setubalense”» (que o jornal prepara há mais de seis meses para sair nesse dia evocativo), mostrará bem ao longo de mais de quatrocentas páginas. Nelas se espelha o pulsar da vida das instituições e das gentes, desde a cidade de Setúbal à região e a todo o distrito, assim como o papel das figuras históricas que os protagonizaram. E espelha, também, a ligação da região ao que se passava no país e no mundo. Um jornal é mais do que um conjunto de folhas de papel impressas com notícias, é um património comum que é preciso ajudar a salvar.

É caso para desabafar: caramba, caros autarcas e empresários, rompam o estranho silêncio e ajudem a garantir a continuidade d’«O Setubalense». Sem imprensa livre não há liberdade de expressão, sem liberdade de expressão não há Democracia: quem ousa afirmar o contrário?

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