PENSAR SETÚBAL: Giuseppe Licciardello

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Giovanni Licciardello - Professor

Ainda na sequência da comemoração da passagem dos 75 anos do fim da 2ª Guerra Mundial, vamos hoje falar de um homem que desempenhou um papel determinante na minha formação pessoal: o meu tio paterno, o zio (tio) Pippo, diminutivo de Giuseppe.
Giuseppe Licciardello nasceu em Catania (Itália), a 3 de Março de 1910.
O zio Pippo era Comandante da Marinha Italiana, assim como o meu pai, avô, bisavô e trisavô. Todos lobos do mar.

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Tal como Portugal, também a Itália tinha possessões ultramarinas em África, tais como a Líbia (Tripolitânia e Cirenaica), Etiópia, Eritreia e Somália (África Oriental Italiana).

Em 1929 passou a residir em Asmara, capital da Eritreia, tendo montado uma fábrica de óleos de peixe que enviava para Itália, a fim de serem transformados em produtos de cosmética, etc.

Nos anos 30 foi designado comandante de porto, em Massawa, tendo mantido esse cargo até ao início da 2ª Guerra Mundial.

Era um homem com ideias políticas de direita e um profundo crítico de Mussolini. Quando em 1940, Benito Mussolini, primeiro-ministro italiano do regime fascista (auto-intitulado Duce), declarou guerra à Inglaterra, a reboque da Alemanha nazi, o zio Pippo afirmou que era um erro estratégico tremendo, porque atrás da Inglaterra vinham os Estados Unidos, com o seu enorme potencial e que para além disso, a Itália, em geral, e as forças armadas italianas, em particular, não estavam em condições de suportar uma guerra, tal como se veio a verificar.

Com o início da guerra, o zio Pippo foi recrutado para o exército, tendo imediatamente ido para a linha da frente, como comandante de um batalhão, com a incumbência de defender uma elevação, próximo de Asmara.

Com os primeiros combates, foi feito prisioneiro pelos ingleses, tendo ido parar a um campo de concentração.

Começou então a arquitectar um plano de fuga, tendo conseguido entrar e posteriormente saltar de uma camioneta em andamento, não sendo detectado pelos dois soldados eritreus do veículo.

Andou a monte durante cerca três anos, em território Eritreu. De noite, aproximava-se sorrateiramente dos acampamentos, principalmente dos soldados ingleses e roubava-lhes comida, sobretudo batatas e feijão.

Dormia de dia e movimentava-se de noite. Sempre só. Não pretendia ser apanhado por nenhum dos dois lados; pelo Eixo, seria fuzilado ou incorporado de novo no exército, numa guerra que ele não concordava; pelos Aliados, teria sido feito de novo prisioneiro de guerra.

Com o fim da guerra, regressou a Itália. Nos anos 50, por questões de saúde, passou a efectuar viagens nos barcos comandados pelo meu pai, tornando-se o seu primeiro oficial.

Nos anos 60 e 70, o zio Pippo vinha de férias para Portugal, sendo eu a sua principal companhia nas deambulações pela Setúbal de então. Aprendi a compreender a sua forma de ser, estar, pensar, sentir. Ouvia avidamente todas as suas façanhas de guerra.

Ia muitas vezes comigo ao futebol. Gostava muito do Vitória.

Era um homem extremamente inteligente, bondoso, afectivo de forte personalidade e com um profundo sentido de humanidade próprio de quem, como ele próprio dizia, ter andado na guerra.

Foi um Homem que me marcou profundamente. Um segundo Pai.

O zio Pippo era nosso padrinho de baptismo: meu e do meu irmão Luigi.

As pessoas nunca morrem completamente, enquanto permanecerem no espírito e na memória daqueles que vão ficando.

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