500 palavras: Bocage biografado por Daniel Pires

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João Reis Ribeiro

Entre os acontecimentos culturais ligados a Setúbal em 2020 ficará, sem dúvida, a edição da obra “Bocage ou o Elogio da Inquietude”, assinada por Daniel Pires (Lisboa: Imprensa Nacional), que, apesar de ter o ano passado como data de publicação, só surgiu para o público recentemente, em Maio.

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Ao longo de vinte capítulos, entra o leitor nos meandros da vida do mais conhecido poeta setubalense, Bocage (1765-1805), que, no mundo das academias setecentistas, ficou conhecido por Elmano Sadino (conjugando o anagrama do seu primeiro nome, Manuel, e a referência toponímica à sua origem). Esse percurso nem sempre foi de reconstrução fácil, avisando Daniel Pires, em várias ocasiões, ser necessário “recorrer ao campo das hipóteses” para acompanhar o poeta em diversas épocas da sua vida, devido à falta de documentos ou à ausência de referências. Contudo, nesses momentos, o biógrafo informa o leitor sobre a explicação hipotética, avançando com elementos que sustentam a sua interpretação, tornando-se, assim, autor e leitor cúmplices nesta visitação a Bocage e ao seu tempo.

Apesar de o adjectivo gentílico ter sido integrado pelo poeta no seu nome da academia, as referências a Setúbal são escassas na obra bocagiana, parecendo que levou à letra o seu verso “Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado” com que abre um soneto, publicado no primeiro tomo das “Rimas”, em 1791. Informa Daniel Pires que, a partir do momento em que, em 1783, foi transferido para a Academia dos Guardas-Marinhas, “a sua partida de Setúbal foi quase definitiva”, pois “só terá estado na sua terra natal em 1790, na sequência do seu regresso do Oriente, e, em 1802, quando o pai faleceu.” As causas deste afastamento poderão ser várias, mas não serão estranhas a tal “inquietude” que caracterizou a sua vida, o facto de o pai ter caído em desgraça por um crime não provado e, sobretudo, o desgosto amoroso resultante do casamento de seu irmão com a jovem que o vate amava (Gertrúria, nas referências poéticas, filha do governador do Outão).

Da experiência do poeta no seu percurso de quarenta anos salvou-se a escrita, que lhe trouxe o reconhecimento, ainda sentido em vida: “no início do século XIX, Bocage usufruía de um estatuto literário elevado”, testado nas republicações e no valor que os contemporâneos lhe atribuíram – “o estilo genuíno, a autenticidade, o apuro formal, a capacidade de improvisação e a forma peculiar como dizia os poemas despertavam inequívoca admiração”. Bem interessante é a incursão que o biógrafo faz pela vida editorial do tempo do poeta, assim como pelo historial das edições sucessivas dos poemas de um autor que, apesar do valor que lhe era atribuído, terminou, “para cúmulo, sem túmulo” (título do derradeiro capítulo da obra, algo prenunciador de outros nem sempre simpáticos tratos).

O ritmo das ideias, das viagens, das contendas, dos desgostos, das descrenças, das polémicas, da miséria, da prisão e da falta de saúde, e a qualidade literária sempre acompanharam Bocage, apresentando Daniel Pires contextualizações sobre cada um dos tempos ou cada um dos problemas que enformaram o percurso do poeta (ambientes, regras, costumes, hábitos, em Portugal, no Brasil ou no Oriente) com uma eficácia informativa e uma abrangência plural que guiam o leitor, aliando ainda alguns textos bocagianos a certos momentos biográficos, sem que esta colagem se sobreponha ao reconhecimento literário dos mesmos.

Tratando-se de uma obra de leitura acessível, fortemente alicerçada na investigação (muitos documentos são divulgados pela primeira vez), bom seria que ela constituísse também um alerta para que Bocage reocupasse o lugar que merece nos estudos de literatura e cultura portuguesa do ensino secundário, mesmo por uma questão de cidadania!

João Reis Ribeiro

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