A vida, a Covid-19 e a morte

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Mário Moura - Médico

Ninguém pediu para aparecer na vida, para nascer. Mas o anseio generalizado das pessoas quando tomam consciência de que estão aqui, neste mundo. é viver o mais tempo possível e gozando aquilo que ela – a vida – nos pode conceder de bom e agradável. Só que este conceito de viver bem a vida tem vindo através dos séculos a modificar-se e atingiu nos nossos tempos atuais facetas muito diferentes e verdadeiramente anómalas. Pois a maioria das pessoas na nossa atualidade pensa e orienta a sua vivência na conquista de poder e bem estar mesmo à custa dos seus conterrâneos. E estas conceções desembocaram há já muitos anos no esquecimento de que todos têm o mesmo direito ao usufruto do que a vida pode dar – a natureza é um bem comum a todos os viventes, bem como tudo aquilo que dela se pode extrair.

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Como não tem sido assim o comportamento da maioria dos homens assistimos á divisão de classes, uns que acumulam benesses e outros que nada têm – isto é: uns tantos (bem poucos) usufruem das riquezas que a pródiga natureza dá e outros, muitos – a maioria) passam fome, vivem em barros de lata, falta-lhes o essencial para que possamos dizer que têm uma vida digna. Há muito que a vida é assim gerando descontentamentos, protestos, violências e guerras. Mas eis senão quando ( e não é a primeira vez!) aparece um ser vivente, microscópico, mas duma agressividade extrema , com uma capacidade de expansão extraordinária que se estende praticamente pelo mundo todo, pelos seus vários continentes, fazendo adoecer as pessoas às centenas ou mesmo milhares em cada dia e matando igualmente centenas diariamente, especialmente as pessoas mais idosas, levando os serviços de saúde á exaustão e provocando uma alteração total no modo de vida das pessoas.

Parece que a maneira mais útil de escapar ao tal vírus (covid assim se chama) é as pessoas fecharem-se em casa , confinarem-se como se designa o tal recolhimento. Só que as pessoas, a maioria, são necessárias para fazerem funcionar a produtividade das sociedades, para produzirem aquilo que serve para vender e dar riqueza às tais classes que foram enriquecendo através dos tempos. E aí estamos perante um dilema, perante duas necessidades – suster o vírus e portanto defender a saúde perturbando toda a vida das sociedades e ameaçando os detentores dos bens e do dinheiro – contra a necessidade de preservar o maior número de vidas .

E vemos que este dilema está virando para o lado da produtividade pois os governos são pressionados pela fatia das posses. E depois dum período de “confinamento” estamos vivendo agora o período de desconfinamento, isto é, uma tentativa de regressar à vida anterior á cheada do vírus, correndo o perigo de aumentar o número de vítimas. A quase totalidade dos seres humanos fogem da morte, fogem até de pensar que ela existe e que um qualquer dia aparece a por fim a nossa vida.

Até a maioria dos médicos não gosta de pensar na morte que muitos consideram, quando surge, um seu fracasso. Mas a morte é uma realidade, é talvez a única certeza que temos se pensarmos na nossa vida. E a morte, se pensarmos nela com verdade e aprofundamento, faz-nos ver o verdadeiro sentido da vida, faz-nos ver o que é supérfluo e o que é verdadeiramente essencial na nossa vida, faz-nos ver o que fazemos alimentado pelo nosso egoísmo (que é muito) e o que fazemos por solidariedade e pelo afeto, pelo amor, pedra essencial da nossa vida, verdadeiro “caroço” duma vida feliz. É altura , estando a desconfinar e estando a organização da sociedade virada do avesso, é o momento apropriado para corrigir o que existia de mal na sociedade em que vivíamos e façamos os necessários desvios e correções para, depois de domesticado o tal vírus ( que vai ficar entre nós), construamos uma vida melhor. É altura de “tirarmos a máscara” de exploradores bonzinhos e possamos olhar uns para os outros com olhares fraternos- tiremos a máscara!!!!!

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