O país precisa de um plano para o regresso às aulas

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Joana Mortágua, deputada do Bloco de Esquerda

O mundo está a começar a perceber os perigos de ter milhões de crianças fora das escolas. Em todo o mundo houve 1.6 biliões milhões de crianças e jovens afastados da escola pela pandemia. 95% das crianças do mundo ficaram mais expostas à pobreza, às desigualdades e a realidades extremas.

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Em Portugal ainda não conhecemos os efeitos sociais e pedagógicos do encerramento das escolas e do ensino à distância. Não há estatísticas oficiais mas num questionário do Observatório de Políticas de Educação e Formação, ⅔ consideraram que o encerramento das escolas prejudicou a igualdade de oportunidades de acesso à educação. Essa é também a conclusão de um inquérito da FENPROF, que acrescenta que a meio de maio mais de metade dos professores ainda não tinha conseguido contactar os alunos.

A geração dos nativos digitais está sujeita às mesmas desigualdades sociais que condicionam o acesso à educação. E quanto mais tempo as crianças passam afastadas das escolas, mais riscos existem para o seu desenvolvimento pessoal e para o progresso coletivo do país.

Abandono escolar, pior alimentação, agravamento de problemas de saúde mental, menor acesso à saúde e a acompanhamento especializado, menor acompanhamento das crianças com necessidades educativas especiais, violência doméstica ou a simples falta de interação com os colegas, tudo isto são consequências de se fechar as crianças em casa. É evidente que quem sofre mais são aquelas que vivem em mundos mais pobres, mais pequenos ou mais assustadores, mas todas as crianças precisam da escola para se fazerem gente.

A escola pública não é apenas um espaço onde se vai ensinar ou aprender os conteúdos letivos. É um instrumento essencial de justiça social, que deve responder a todos por igual e não pode deixar ninguém para trás. E é precisamente isso que faz dela um dos pilares do Estado Social no nosso país.

Só em situações extremas, como o confinamento geral imposto pelo COVID19, é que o ensino à distância pode ser considerado como uma solução temporária e de emergência. Foi o que aconteceu no nosso país: uma resposta de emergência graças ao esforço coletivo dos professores, pais e alunos. Com dificuldades, com criatividade porque não tiveram a formação que deviam ter tido, com o seu próprio dinheiro e os seus computadores, porque as escolas não tinham – e continuam a não ter – equipamento informático.

Ter orgulho na escola pública não é ignorar os problemas, nem os apelos de quem a constrói todos os dias. Como o desta professora do 2º ciclo que deixou um testemunho no site escolapublica.pt:

“Estamos a perder os alunos com mais dificuldades e de meios mais desfavorecidos ou mais desacompanhados face às condições de trabalho dos pais. Para nós, professores, a frustração é grande e o sentimento de impotência é esmagador. O trabalho é absolutamente insuportável. Exaustão e depressão, computadores a avariar em virtude de utilização excessiva, tendinite e contraturas musculares”.

Foi com consciência destas dificuldades que o Bloco de Esquerda tomou uma posição clara pelo regresso às aulas e apresentou duas propostas para tornar esse desafio possível em tempos de pandemia: a redução do número de alunos por turma para permitir o afastamento social; e o investimento em recursos humanos para acompanhar todos os alunos que precisam, permitir o desdobramento de turmas e garantir a desinfecção e limpeza das escolas as escolas.

Mesmo sem um plano próprio que possa defender, o PS alinhou com a direita para chumbar esta proposta. Perante todas as dúvidas sobre as intenções do Governo, fica apenas uma certeza: O país precisa de um plano para o regresso às aulas

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