A igreja que queremos

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Mário Moura - Médico

Quando foi criada a Diocese de Setúbal, a sociedade da nossa Região estava fortemente politizada pelas ideias a que chamamos de esquerda. A nossa Igreja fora preparada para a criação da Diocese pelo Cónego João Alves que dinamizou uma Igreja arcaica e rotineira E veio para Setúbal um sacerdote do Norte, o que deixou as pessoas desconfiadas. Mas surgiu um Bispo que rapidamente se impôs pela sua modéstia e pelo seu dinamismo ao lado dos problemas sociais em que a região era fértil.

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E toda a gente recorda com saudade o Sr. D. Manuel Martins a que malevolamente chamaram de “Bispo Vermelho” pela sua preocupação com os problemas sociais e por organizar uma Igreja interventiva, “em saída” como hoje diz o Papa Francisco. A dinâmica de D. Manuel foi acompanhada por muitos cristãos que ansiavam por uma Igreja orientada pelos ventos do Concílio Vaticano II.

E essa dinâmica passava por tentar democratizar a própria vida da Diocese e foi criada uma “Assembleia Diocesana” com representantes das várias paróquias, eleitos pelos seus pares. Porem esta orientação era dificilmente seguida por muitos sacerdotes e até o Sr. D. Manuel foi pressionado na Conferência Episcopal Portuguesa, indo a Assembleia, progressiva e lentamente, perdendo as suas características democráticas – só D. Manuel foi impondo a sua maneira de ser Bispo e ser cristão, colocando no centro o “Povo de Deus”, o Povo de Deus pobre.

Apesar de vivermos em democracia , apesar de ter acabado a Censura política que até censurava notícias e textos do Concílio, na maioria das Dioceses continuou uma Igreja pouco “modernizada” pelos ventos Conciliares. Em Roma foi Papa João Paulo II, num longo papado, muito mediático, mas também muito ligado às tradições centenárias . Tinha como guardião da Doutrina o Cardeal Ratzinguer que era implacável com os teólogos e as teologias que divergissem da doutrina oficial. Vem a ser depois Papa Bento XVI que veio a resignar e dando lugar a um Cardeal “vindo do outro mundo”, da América Latina, que se chama Francisco, pensando num outro Francisco (de Assis) que amava os pobres e a natureza.

Durante décadas, da Conferência Episcopal Portuguesa, mesmo depois de se sentar na Cátedra de Pedro o atual Papa Francisco, não se sentia um verdadeiro sopro para dinamizar os nossos bispos para a construção duma Igreja mais dinâmica e menos ritualista. Entre nós, em Setúbal, o Sr. D. Manuel deixou uma forte marca. Seguiu-se-lhe D. Gilberto Reis, homem simples e afável, mas que em nada modificou a nossa vivência eclesial. E seguiu-se-lhe D. José Ornelas, verdadeiramente enviado pelo Papa para esta terra de missão.

A Conferência Episcopal continuou sem imprimir à nossa Igreja um novo rumo. Tem feito análises da situação da Igreja Portuguesa, tem redigido documentos ´serios e acutilantes, mas das reuniões não parecia sair o tal sopro de renovação que o atual Bispo de Roma tem imprimido à sua acção e à sua palavra, que põem o povo de Deus no centro e que pede desde que chegou a Roma ,uma Igreja “em saída” (das sacristias), “uma Igreja pobre para os pobres”. Eis que a Conferência Episcopal, após dois mandatos do Cardeal Patriarca de Lisboa como presidente, resolve nomear alguém mais novo, alguém com perfil missionário, o nosso Bispo D. José Ornelas. No nosso ponto de vista tem pela frente o nosso Bispo, uma tarefa enorme e aliciante.

E com uma ou duas entrevistas aborda problemas candentes de atualidade que a Imprensa escrita e televisiva transforma em grandes títulos , aumentando de imediato a responsabilidade de D. José Ornelas, embora a nossa Igreja de Setúbal ainda não mostre um “aggiornamento” sensível. Mas muitos cristãos por este Portugal fora estâo ansiosos para que a voz do nosso Papa Francisco se transforme realmente em modificações reais da orgânica e da prática dos seus pastores. Ao Sr. D. José Ornelas desejamos que o Espírito, a que chamamos Santo, o inspire e comova o episcopado português.

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