Os depósitos de resíduos do Vale da Rosa

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Juvenal José Cordeiro Danado - Professor

A história é conhecida e vai pra velha.

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Uns figurões apresentam-se, expeditos, a prometer mundos e fundos. Nas entrevistas que dão, não há pergunta pra que não tenham uma resposta imaculada. Falam de maravilhas: investimentos, criação de empregos, produção de riqueza, desenvolvimento das localidades e das regiões. O parlatório, a roçar o filantrópico, é de embalar.

Quem se dá a uma fé inabalável nos «empreendedores», e mais os que se dão a ouvir e ler sem espírito crítico, regozijam: «Venha o empreendimento».

A coisa acontece. Há obras. Máquinas e homens num frenesi. Estruturas aprontadas no faz de conta do respeito pelos regulamentos, enquanto o diabo coça o nariz. A promessa entra a laborar.

E os crentes, enlevados no que veem, vaidosos das suas convicções e felizes do seu apoio sem reservas. Se alguém fala de desvios ao projeto inicialmente anunciado, levanta a voz contra irregularidades gritantes, denuncia óbvias agressões ao meio ambiente, os crentes apontam o dedo e acusam: «Inimigos do progresso!».

Mas há empreendimentos e empreendimentos. Há quem cumpra leis e respeite as regras. Mas também há quem não tenha intenção alguma de o fazer e recorra a qualquer meio para conseguir o exclusivo intento – ganhar dinheiro, e quanto mais melhor, não interessando que seja sujo. Tropa-fandanga altamente especializada na matéria é o que não falta cá no burgo.

O tempo passa. E a coisa corre para o torto. As autoridades acordam e atuam, as estrangeirinhas descobrem-se, os crimes revelam-se. Quando se veem apertados, os figurões fecham a loja, e agora apanhem-nos se forem capazes.

E não os apanham. Porque no entremeio realizaram, a preceito, o trabalhinho de casa – amizades bem colocadas, compra de influências, conivências ou desleixos autárquicos e de entidades reguladoras, buracos do sistema, exploraram tudo. E temos o epílogo de outras histórias escabrosas que conhecemos: um complicado e infindável processo judiciário, míngua de provas, ilibações garantidas. E os mais que prováveis culpados de graves crimes ambientais, de pança cheia e orgulhosos das suas competências para enganar e furtar-se ao castigo, a rirem-se da justiça e dos demais poderes, da crendice dos papalvos e das populações próximas – que ninguém quis ouvir no lançamento dos projetos e são quem sofre os maiores prejuízos.

Histórias de vendedores de gato por lebre. Novelas de começo auspicioso e amargos desenganos, no desfecho. Confusas pelo intrincado do desenvolvimento (o historial da falcatrua) e, aparentemente, difíceis na identificação das personagens (isto é, na definição dos malfeitores). Ou muito me engano, ou os depósitos de resíduos do Vale da Rosa caberão nesta categoria de novelas. É cá um palpite.

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