Maria Albina Bartolomeu: História(s) de família em Azeitão

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João Reis Ribeiro

O livro abre com uma fotografia do casal José dos Santos e Maria José, em jeito de quem inicia a visita a um álbum de família de que eles serão os inauguradores (se é que há fundadores de família…). Parte importante da narrativa vai viver deste par, bisavós de Maria Albina Bartolomeu, que assina “Um dia que mudou vidas” (Lisboa: Edições Vieira da Silva, 2019), recriação da história de várias gerações a partir de relatos transmitidos pela avó, Susana Martins, e pelo pai, Albino Martins.

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O propósito é anunciado em nota prévia – “deixar um testemunho dos nossos antepassados aos meus descendentes” – e reforçado no final, ao fechar a narração (e a escrita): “que esta narrativa sirva para os mais novos nunca esquecerem as suas origens”. Assumido o carácter testemunhal, o leitor entra na história da família, muitas vezes ouvindo a voz da narradora, quer enquanto mediadora entre o passado e o presente, contextualizando muitas vezes os tempos e as suas circunstâncias (por vezes, comentando as diferenças resultantes dos hábitos e das modas), quer como responsável pelo enunciado, visível logo no início do primeiro capítulo – “Começo hoje este texto, dia 5 de Outubro de 2017. Primeiro a ideia surgiu de forma espontânea, mas, ao iniciar o mesmo, lembrei-me de que este dia tinha também muito significado na vida de alguns dos intervenientes nesta pequena biografia de uma família.”

José dos Santos (1858-1930), cognominado “Caramelo”, natural da Anadia, chegou a Azeitão em 1866, depois de um percurso em busca da subsistência e marcado pelos medos e pelas inseguranças, sendo acolhido pelo casal Manuel e Josefa num regime de adopção aceite por ambas as partes. Do casamento de José dos Santos com Maria José nasceram vários filhos, acompanhando o leitor o percurso de Susana (1897-1977), que enviuvou de Francisco (1923) depois de seis anos de casamento, relação de que houve três descendentes, sendo privilegiado o percurso de Albino Xavier (1918-2005), casado com Maria Bárbara (f. 2013), também com três filhos, sendo uma das irmãs Maria Albina (n. 1951), a autora, casada em 1975 com Manuel. Quatro gerações passam nesta história, ainda que haja referências aos pais da primeira geração e aos filhos e netos da última.

As personagens vivem entre Azeitão e Setúbal (com alusões a outros locais da região), espaços em que se cruzam com figuras localmente conhecidas (Alexandre Cardoso, o médico Teixeira, Artur Cardoso, Isabel Chagas, Manuel Pato, Peres Claro, Mestre Oliveira, entre outras). Embora a narrativa não explore as descrições, ao longo das décadas abrangidas, há lugar para contextualizar tempos como a Segunda Grande Guerra, a Guerra Colonial, o do receio causado pela polícia política ou o 25 de Abril. A propósito de alguns episódios, surgem também comentários ao presente (“hoje em dia, teme-se que as nossas crianças fiquem afectadas negativamente pelo facto de ajudarem os pais nas tarefas domésticas”, por exemplo), manifestando-se assim o propósito de testemunhar a diferença e a mudança dos valores.

A história (num texto que mereceria uma revisão cuidada) resume cerca de 150 anos do percurso de uma família (1866-2017, entre a chegada de José a Azeitão e o início da escrita), em que intervieram pessoas que foram heróis das suas vidas, numa narrativa que mostra de que são feitas as identidades e que aqueles com que nos cruzamos no mundo são, todos eles, bom assunto para um relato, pois qualquer vida dá um bom filme…

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