De olhos bem fechados

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Cristina Rodrigues - Deputada não inscrita

Foram divulgados na semana passada os resultados de um estudo de avaliação ao impacto da colheita mecânica nocturna de azeitona nas aves. Estes resultados vieram confirmar o que diversos investigadores e associações ambientalistas já vinham alertando há muito tempo: esta prática provoca, de forma significativa, perturbações e mortalidade dos pássaros que, durante a noite, se abrigam nos olivais.

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Segundo dados de 2019, o número de aves mortas devido à colheita mecânica ascende a mais de 96 mil indivíduos por ano. No entanto, o Presidente do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) desvalorizou, considerando que os números não eram relevantes. Mas afinal não é assim! Tanto que esta prática será alvo de maior fiscalização, considerada infração à legislação em vigor. Veremos o que acontece futuramente…

No mês passado, o Ministro do Mar mergulhou nas pradarias marinhas do rio Sado, a convite da Ocean Alive. Doutorado em Biologia Ambiental e Evolutiva, o Ministro reconhece a importância destes ecossistemas no sequestro de carbono e como maternidade de diversas espécies marinhas.

A ONU lançou recentemente o relatório “Out of the Blue: The Value of Seagrasses to the Environment and to People” que alerta precisamente para o risco de destruição destes habitats. Estima-se que, anualmente, a sua área esteja a diminuir cerca de 7% , contribuindo para a fragilização de 22 das 72 espécies que neles habitam. E desde finais do século XIX, já terão desaparecido cerca de 30% destes ecossistemas, como resultado de actividades humanas e das alterações climáticas. No combate a estas últimas, aliás, poderão as pradarias marinhas ser um dos nossos maiores aliados pela sua enorme capacidade de absorção e armazenamento do dióxido de carbono e outros gases nocivos.

Mas também nesta matéria, as entidades governamentais parecem julgar que estes valores não são relevantes e, portanto, nada dignos de uma intervenção mais profunda que reconheça que há valores acima dos económicos. Esta postura é também a do Ministro da Economia, apesar do muito que se tem falado em descarbonização da mesma. Em audição, na semana passada, interpelei-o acerca da dependência económica do nosso país em relação ao turismo, um dos sectores mais poluentes e com enorme responsabilidade sobre as alterações climáticas. De facto, vivemos entre a necessidade de aumentar o turismo pela sua importância na nossa Economia e a necessidade de repensar as nossas rotinas de forma a proteger um dos maiores bem que temos, o nosso Ambiente! Aqui bem perto, continua-se a pavimentar dunas – veja-se a zona dunar na Fonte da Telha – , a construir em zonas protegidas – veja-se o mega empreendimento turístico que terá lugar na Comporta – tudo em nome do turismo! Fiquei profundamente perturbada pela sua resposta na qual mostrou que o ambiente está no final da sua lista de prioridades.

Continuamos, enquanto sociedade, a fechar os olhos para os resultados desastrosos da nossa relação com a Natureza! Continuamos a acreditar que as nossas tentativas de a manipular se traduzirão apenas em ganhos, quando isso não é verdade. Até quando vamos desvalorizar os alertas dos especialistas e da Natureza?

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