Fonte da Telha, crónica de uma destruição anunciada

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José Luís Ferreira, deputado do PEV

Não se pode continuar a assistir a mais um atropelo, que não é pequeno, à conservação da Natureza, à proteção do Litoral, à adaptação às alterações climáticas, sem condenar, interrogar e pressionar para travar.

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No passado dia 9 de junho a Câmara de Almada iniciou o alcatroamento dos acessos às casas, restaurantes e praias da Fonte da Telha, em plena duna primária, aumentando a impermeabilização dos solos e aumentando a vulnerabilidade da zona às alterações climáticas e à subida do nível médio das águas do mar.

A autarquia, gerida pela coligação PS/PSD, está a levar a cabo uma obra que desafia qualquer estratégia de gestão do litoral e de Conservação da Natureza e coloca em risco uma estrutura natural de vital importância para a proteção da orla costeira como são as dunas primárias.

Com efeito, esta obra está, não só a contribuir para a impermeabilização e aumentar a pressão sobre o sistema dunar, como irá contribuir para o aumento caótico rodoviário do local, quando o que seria sensato era reduzir a pressão automóvel.

A Fonte da Telha tem um núcleo habitacional fortemente desordenado com cerca de 600 edifícios, muitos deles degradados ou de génese ilegal, pouco ou nada integrados na paisagem protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica.

Toda esta zona carece de uma intervenção estruturada cujo POOC Sintra Sado e Plano de Pormenor previam a relocalização, reabilitação ou demolição assim como dos equipamentos existentes, acessos e regularização do estacionamento, de forma integrada e recorrendo a pavimento com elevada permeabilidade, nomeadamente calçada grossa.
Mas nada disso está a acontecer e o Executivo Camarário optou pela solução fácil e rápida de potenciar o acesso automóvel, reduzir o pó da estrada de terra batida existente e descurar por completo as normas básicas de ordenamento da Orla Costeira.

A descentralização e municipalização de competências e responsabilidades que o Governo do PS, tem vindo a protagonizar, e que este executivo autárquico tão bem abraçou, tem levado à desestruturação de importantes áreas que perdem o seu enquadramento nas estratégias nacionais passando a retalhos de vontades circunstanciais como é o caso do ordenamento da Orla Costeira ou da gestão das áreas protegidas.

A orla costeira do nosso país está cada vez mais vulnerável às inconstâncias climáticas e à gradual subida do nível médio das águas do mar, do qual a Costa da Caparica e Fonte da Telha não são exceção, como de resto todos temos testemunhado nos últimos anos com a violência de invernos que levam parte das praias e destroem e inundam áreas construídas, obrigam a uma constante reposição artificial das areias e à construção de pesados muros de betão de proteção.

As dunas primárias e a sua vegetação endémica são sistemas naturais de prevenção do avanço do mar, pelo que a requalificação de zonas como a Fonte da Telha deve ser por aí orientada e não o estender de um tapete negro que nem de arranjo estético serve.

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