Um verdadeiro pescador de homens

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Mário Moura - Médico

Deixou-nos o Padre Manuel Vieira que toda a sua vida foi um verdadeiro pescador de homens.. Conheci-o quando era pároco no Castelo de Sesimbra. Procurei-o cheio de problemas de Fé por ter já nessa altura a fama de ser um padre preocupado com o seu rebanho, simples e interessado com “o dentro” das pessoas. Pela sua mão passei a fazer parte da Igreja. Depois da sua vinda para a Paróquia da Anunciada convivi com ele no movimento dos Cursos de Cristandade , uns retiros nascidos em Espanha e que estavam fazendo a sua marcha em Lisboa. Era um movimento que iniciara os seus passos entre gente socialmente bem colocada e que começavam igualmente fazendo a sua marcha em Setúbal. Mas o Padre Manuel Vieira entendeu que para ser , em cada curso, uma amostra do Povo de Deus, se deviam chamar á Fé grupos mais representativos da nossa sociedade. Assim em Setúbal eram convidadas a frequentar tais retiros, não apenas doutores e engenheiros , mas gente simples e menos letrada – estava o Padre Vieira pensando nos pescadores que constituíam boa parte dos seus paroquianos. E assim se fez.

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A sua preocupação com as gentes do mar fez com que em Setúbal criasse o “Stela Maris”, iniciativa de apoio a marinheiros e pescadores. Mas em Setúbal, como no resto do nosso Portugal, reinava a pobreza, e o Padre Vieira consciente dessa realidade colocou nas prioridades da sua ação de Pastor, os problemas sociais, e a sua obra foi enorme – nasceu creche e lar para idosos. E esta preocupação assim materializada tornava a Igreja de Setúbal algo diferente duma Igreja que na sua generalidade era snob e, naquela época, muito junta ao poder não democrático que governava o nosso Portugal.

Até os “ventos do Concílio Vaticano II” eram “contidos” pela censura então existente no regime que nos governava. E depois da criação da Diocese de Setúbal este espírito de apoio das classes pobres, em Setúbal, foi reforçado- e de que maneira – pela vinda de D. Manuel Martins como primeiro Bispo da nova Diocese.

O Padre Manuel Vieira foi com toda a sua ação um exemplo da materialização da Palavra de Deus. A sua longa vida, pois faleceu com noventa e oito anos, foi assim um verdadeiro testemunho do que deve ser a nossa Igreja que, presentemente, com atual Papa Francisco, necessita bem de se ir tornando numa “Igreja pobre para os pobres”.

É nossa esperança que , com a eleição do nosso atual Bispo – D. José Ornelas – para a presidência da Conferência Episcopal Portuguesa , se venha a sentir um verdadeiro “aggiornamento” na nossa Igreja, muito especialmente pelo drama que se está vivendo com as consequências socio-económicas da pandemia do corona vírus. As nossas paróquias, verdadeiras células duma rede, têm de sentir-se na sua ação de estudo da realidade e de apoio social , num país que vai sofrer um verdadeiro cataclismo social. Como já se tem dito , se estamos perante um cataclismo social, também temos á nossa rente uma oportunidade de – como cristãos – colaborarmos numa verdadeira reconstrução duma sociedade nova que não centrifugue para as periferias as classes mais pobres e débeis.

O exemplo de vida e de ação do Padre Manuel Vieira pode ser um incentivo para a nossa Igreja de Setúbal.

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