A cidade perfeita

36
visualizações
Carla Cisa, directora-geral da WeMob

Mais ou menos lentamente, parece-me inevitável que a vida nas cidades venha a sofrer uma mudança. Para bem do ambiente, e de todos nós. Se dúvidas houvesse, a pandemia e o atual estado de desconfinamento, que se pretende não venha a ser causador de uma nova situação de emergência, tornam tudo mais urgente.

- Pub -

Em algumas cidades, do mundo, essa alteração é já uma realidade. A proibição do veículo automóvel, a criação de zonas pedonais, de ciclovias, e de mais espaços verdes têm contribuído para uma melhoria significativa da qualidade do ar, e da vida de quem vive ou trabalha nas cidades. Noutras, parece que nada mudou. Num tempo em que não restam dúvidas (são os especialistas que o dizem), que as alterações climáticas estão, diretamente, ligadas ao aparecimento de vírus, precisamos de mudar o rumo. E tem de ser já. O tempo de acharmos que tínhamos tempo, acabou. Regressar à normalidade, seria um erro.

Mas há mais. Enquanto, por cá, os transportes públicos continuam a ser uma desgraça, e as pessoas continuam a ter de atravessar concelhos, recorrendo a vários transportes, no início e no fim do dia, e o automóvel continua a envenenar o ar, retirando saúde e espaço às pessoas, há já quem defenda o conceito de Cidade dos quinze minutos. Uma utopia? Se calhar. Uma mudança radical, é certamente. Se todas as cidades lá chegarão? Não, certamente. Se algumas conseguirão? Dizem os especialistas que sim.

Este conceito assenta na importância do tempo de qualidade, na vida das pessoas. Pretende pôr fim à forma como se vai gastando o tempo, dia após dia, numa vida, obrigatoriamente, feita à pressa.

No momento presente, vivo e trabalho em Almada. Há já uns anos que assim é. Sou, portanto, uma privilegiada. Desloco-me a pé, ou de metro, diariamente.

Preferencialmente, a pé. De manhã, gosto de descer a avenida, sem pressas, e ir colocando o dia de trabalho em perspetiva. Naqueles vinte minutos consigo pensar, fazer exercício, ver pessoas, não poluir o ar, e iniciar o dia de forma tranquila. Sou, de facto, uma privilegiada.

Mas esta não é, de todo, a realidade de muitos. Estamos longe da Cidade dos quinze minutos. A Cidade perfeita, proposta por Carlos Moreno, cientista franco-colombiano, e especialista em cidades inteligentes, onde a vida não é apressada, e onde tudo está ao alcance das pessoas bastando para tal deslocações de quinze minutos, a pé, de bicicleta, em veículos elétricos compartilhados, ou em transportes públicos sustentáveis. Na Cidade dos quinze minutos, a organização urbana é feita com vários centros dotados de diferentes serviços conseguindo responder, em tempo útil, à satisfação das necessidades das pessoas.

Parece mesmo uma utopia, de tão distante que está da realidade, de tantos, por cá.
Talvez, um dia. Até lá, sejamos nós capazes de melhorar, definitivamente, os transportes públicos, e de produzirmos a necessária revolução no modo de pensar a mobilidade, e no modo como nos habituámos a viver as cidades.

Comentários

- Pub -