2 Março 2021, Terça-feira
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A situação no Vitória Futebol Clube: Passado, presente. E futuro?

Foi para mim uma grande honra e responsabilidade ter sido presidente do Conselho Fiscal e Disciplinar do Vitório Futebol Clube numa das épocas mais conturbadas da sua história, podendo olhar agora com a distância do tempo passado e com a serenidade de dever cumprido, dá-me a oportunidade de tecer algumas considerações.

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A conclusão das profecias chegou no dia 27 de agosto, e não era necessário ser o famoso “Nostradamus” pois só não via quem efetivamente não queria ver, mas eu farei as perguntas difíceis e responderei com os conhecimentos que tenho.

Quem são os culpados desta situação?

Para aprofundarmos esta resposta será necessário recuar mais de vinte anos, ao momento da criação da sociedade anonima desportiva, vulgar SAD, que veio alterar a forma de governação no ambiente do futebol, supostamente garantindo a sua profissionalização e principalmente um rigor e controle financeiros que não são pedidos aos clubes.

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Será que isso aconteceu no VFC SAD?

Claro que não, com a governação centralizada na direcção do VFC e com as sucessivas direcções – que parecem muitas, mas na realidade as pessoas que gravitaram o VFC eram praticamente as mesmas durantes estes anos todos e para isso basta olhar à direcção em funções -, o problema basicamente não está em quem dá a cara, mas nos anónimos que manipularam, controlaram e mantiveram-se organizados para se perpetuarem no tempo, que nunca foram escrutinados, visto que as sucessivas direcções os usavam na intenção de vencer. Sendo assim, nesse contexto não existiu uma influência positiva nos processos a implementar na VFC SAD, são fracos e desorganizados, e quem teve acesso às contas com a atenção que estas merecem, principalmente nos últimos quatro anos, apercebe-se facilmente que a manipulação, a não avaliação das reservas dos revisores oficiais de contas na SAD, o esconder permanente para debaixo do tapete, de todas as debilidades, fragilizava permanentemente a saúde financeira da VFC SAD, por si só já numa situação deplorável, mas arrastando o VFC com ela.

Tudo isto para dizer que os primeiros culpados são, sem dúvida, os detentores do VFC, os seus sócios, pois são eles que escolhem os seus dirigentes e sem dúvida os que escolheram nestes últimos 20 anos, na sua grande maioria não tinham qualquer competência para os cargos no VFC, e muito menos para dirigir a VFC SAD. Foram se deixando manipular, sempre pensando que um clube centenário nunca seria afectado, existiria sempre um mecenas que o salvaria “in extremis” para que pudessem continuar a ir ao estádio com convites, gastar o dinheiro nas rulotes das bifanas ou comprar o “cachecol” à velhota na rua. Tudo menos dar rendimento ao clube.

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Poderão então os sócios saber quais as receitas que efectivamente tinham o VFC e VFC SAD nos últimos anos?

No VFC, praticamente nenhumas, excepto as quotizações, mas o VFC tem pouco mais de 6.000 sócio pagantes e é se tiver. Publicidade, marketing, etc, são uma constante troca de favores permanente entre dirigentes e amigos destes, sem contractos, sem escrutínio dos sócios, podendo favorecer até o VFC, mas seguramente também favorece as outras partes. Nunca saberemos. Quanto à VFC SAD, as receitas de bilheteira, tirando os três grandes, há jogos que podem até ter prejuízo. Há também as receitas extraordinários da venda de jogadores, mas sabemos que nos últimos anos é tudo muito nublado. Em suma, nos últimos anos, houve “orçamentos” (nunca vi nenhum) de 5 M€ receitas de +-3 M€ e uma divida de +- 8 vezes.

Isto não será impossível governar?

Já deveria ter existido uma terapia de choque na governação e há três anos era tarde. Poderemos ver agora os segundos culpados, os seus dirigentes, que, nos seus constantes atropelos aos estatutos do VFC, pouco ou nada cumpriram, nem nas reuniões de direcção, nem nas actas e seus registos, nem na forma de nomeação das administrações da VFC SAD, nem na avaliação de desempenho financeiro, mas principalmente na transparência e na credibilidade referente à utilização dos recursos financeiros do VFC e também do VFC SAD para os fins a que eram destinados. Quanto a estes podemos chamar-lhes os nomes, são identificáveis.

Então porque nada foi feito?

Simples. São corporativistas. Os órgãos sociais defendem-se uns aos outros, talvez até pensando no dito superior interesse do VFC. Mas, como podemos constatar agora, erradamente, nunca ajudaram, só foram afundando, todos juntos, o VFC e com eles arrastaram a VFC SAD para este abismo. Vim alertando, durante 2018 e 2019, para um processo de não retorno, basta ler a entrevista dada 24 de Junho de 2019.

Alguém deu importância ou relevância?

Claro que não, nem os sócios. Desde que a bola entre na baliza. Para os dirigentes era “destabilizar”, e o resultado está à vista. Aprovação de contas com o CFD a dar pareceres negativos e muito negativo, e mesmo bem fundamentados apesar de não quererem ceder qualquer informação a órgãos eleitos pelos sócios, e esses órgãos deveriam ser o garante para que o VFC nunca chegasse a este ponto. Atropelos e mais atropelos aos estatutos do VFC. Sim, porque a VFC SAD é detida pelo VFC, este sim deve ter a palavra.

Que responsabilidade tem esta direcção e podemos ter confiança para o futuro?

Não tem toda a responsabilidade, mas também não está isenta de culpas. Vamos por partes. Como foi explicado anteriormente, o processo é ruinoso já desde vários mandatos, mas podemos considerar que o fio condutor da gestão foi sempre igual, sendo assim não existiram alterações de gestão no VFC que obrigassem a influenciar o rumo que a VFC SAD levava e este já era descendente há bastante tempo. E esta direcção também não foi exceção, nada fez de diferente. Comecemos pelo actual presidente, jogador exímio no tabuleiro político da cidade, consegue lidar bem com amigos e inimigos, bem-falante, mas principalmente bom estratega, pois vai tal qual camaleão adaptando-se e moldando-se às várias necessidades para tirar vantagem. Preparou a sua candidatura muitos antes, foi sempre esforçado – isso não poderemos tirar – mas financeiramente muito desorganizado, e mantendo sempre velhos métodos de trabalho, já mais que sobejamente conhecidos no VFC. Pensou que poderia fazer exactamente o mesmo que os outros seus predecessores, manter o VFC SAD à tona com as respectivas trapalhadas existentes nos últimos vinte anos, talvez pensando “se os outros conseguem nós também”. Veio a Covid-19 e estragou-lhe os planos. Da restante direcção, poucos membros trabalham efectivamente. Há quantos anos está lá o tesoureiro, de direcção em direcção, e de órgão em órgão, os vices, e principalmente todos aqueles directores, que pouco se sabe o que fazem, mas gravitam praticamente por todas as direcções. Não há qualquer prestação de contas ao clube e seus proprietários que são os sócios, mas estão sempre em AG todos sentados. São “mais que as mães”. Não deveriam ser todos chamados a explicar que decisões tomaram, como diz nos estatutos, e principalmente das verbas utilizadas? Por essa razão nunca poderiam contar comigo para pactuar com estes métodos de trabalho obsoletos e que a longo prazo vai dar sempre no que aconteceu dia 27 de Agosto de 2020. E, mais grave, provavelmente no que irá acontecer durante 2020 e 2021, pois não existem condições de governação no VFC nem os sócios nem os dirigentes entendem que o VFC e a VFC SAD não têm rendimentos suficientes para ser sustentável. Não com este tipo de dirigentes.

Todos sabemos das dividas astronómicas e que chegaram ao ponto de não retorno, mas a culpa é da Liga. Embatemos de frente com o órgão regulador, quando as perguntas deverão ser:

  1. Quantos anos andou o VFC e VFC SAD sem liquidar impostos e segurança social? Deverá competir em pé de igualdade com os outros?
  2. Quantos treinadores e jogadores ficaram sem receber durante estes últimos anos e nada foi feito? Deverá competir em pé de igualdade com os outros?
  3. Os PER, aprovados ou em tentativa de aprovação, alguma vez tiveram a mínima possibilidade de cumprimento?
  4. De PER em PER andou a felicidade dos órgãos sociais do clube, sabendo de antemão que o VFC e VFC SAD não poderiam liquidar nos prazos acordados
  5. O VFC SAD neste momento tem condições financeiras, organizacionais e processais para estar na I Liga?

Poderia responder a isto tudo, mas não o irei fazer para já. Talvez até saibam as minhas respostas.

Será que a Liga está mesmo errada?

Claro que não deve estar, e o comunicado do nosso presidente da MAG é, mais uma vez, tal qual nos últimos anos, atirar areia para os vitorianos. Como é possível, analisando aquilo que é o VFC, pensar que todos nos querem mal? A verdade é que, se as instâncias do futebol nos quisessem mal, já estávamos fora das competições há talvez dez anos. Mas não, foram dando sempre oportunidade de nós resolvermos os nossos problemas.

Fomos capazes?

Claro que não. Mantivemos os mesmos dirigentes, o mesmo registo, o mesmo amadorismo e principalmente pensávamos que nada nos acontecia, o maior erro de todos.
Quanto às últimas eleições, efectivamente existiram cinco listas, talvez as últimas eleições com possibilidade de mudança. Parecia vitalidade, mas não, era o desespero de quem vê o VFC morrer um pouco todos os dias e sentir-se impotente para conseguir alterar, mas os sócios, mais uma vez, votaram nos “popularuchos”, conhecedores dos votantes, nos cafés, nas coletividades, na ginástica, no futebol formação… E grandes destruidores de paredes. Para parecer que vão fazer obra, destruíram a entrada, destruíram a Várzea, mas mais uma vez digo, difícil é construir, não é destruir.

Em jeito de conclusão, sim, esta direção também é culpada. Não tem capacidade técnica nem tem moral para dizer que não sabia, pois sabem de tudo há demasiado tempo e nada fizeram. Atrevo-me mesmo a dizer, todos eles. Todos os dias enterram mais um pouco, mas tal como os outros, pensam que estão a fazer o bem. Também existe um terceiro culpado, a Câmara Municipal de Setúbal, que deveria, aquando da sua permanência com capital significativo na SAD, ter maior controle e autoridade, mas não o fez. E mesmo nos últimos anos não solicitou informação financeira, nem forçou a que existisse uma alteração de rumo na gestão do clube. É entendível que queira largar a SAD, como fez em 2019, mas depois não pode doar terrenos ao VFC, e pensar que os sócios irão autorizar de caras passar esses terrenos para a VFC SAD. Sim, a CMS fechou demasiadas vezes o olho a este tipo de gestão. Não o deveria ter feito e quando tentou intervir já foi tarde.

será que as coisas não deveriam ter sido diferentes e não deverão ser diferentes?

Fica para o próximo capítulo.

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