30 Novembro 2020, Segunda-feira
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Chega, um partido novo ou um novo partido com ideias velhas?

André Ventura, líder do Chega, tem procurado fazer passar a ideia de que o seu partido foi criado para fazer o que os outros partidos recusam fazer, nomeadamente, combater a corrupção, logo trata-se de um partido novo. Até afirma que o Chega é o partido contra o sistema.

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Recorde-se que André Ventura foi militante e dirigente do PSD. A questão que se coloca de imediato é: tendo sido dirigente de um partido da área governamental, o que fez para combater a corrupção? O BES é um dos casos de corrupção que maior revolta provoca nos Portugueses. Ora, o Chega tem dirigentes que estiveram envolvidos no caso BES e em outros casos que envolvem a banca, como denunciou uma deputada na Assembleia da República. Conclusão, o Chega é um partido do sistema; talvez o pior exemplo do sistema.

Na convenção do Chega realizada em Évora, a mesa aceitou que fosse debatida uma moção que defendia o regresso dos castigos físicos- retirar os ovários a mulheres que abortassem em certas situações. Graças à Revolução liberal de 1820, mãe da atual democracia portuguesa, os castigos físicos foram banidos. Consta na Carta Constitucional de 1826 que são proibidos: «os açoites, a tortura, a marca de ferro e todas as mais penas cruéis». Argumenta o Chega que a moção foi rejeitada, o que é verdade. Mas, como a Constituição Portuguesa proíbe tal tipo de penalizações, a moção não deveria ter sido debatida. Contudo, a sua aceitação contextualiza-se nos artigos de opinião de André Ventura publicados no Correio da Manhã, em que, desprezando os Direitos Humanos, defende castigos físicos, e na afirmação que fez «estou-me nas tintas para a constituição».

Quem se está nas tintas para a Constituição da República, obviamente, despreza a democracia, pois a mãe de todas as leis é o garante do nosso regime democrático. Outra proposta do autor da moção referida defendia «o fim dos apoios sociais a familiares que integrem condenados mais do que uma vez por crimes violentos». Neste caso, o autor da moção certamente inspirou-se nos métodos usados pela Inquisição que, durante séculos, perseguiu inocentes e seus familiares. Mais uma vez, saiba caro leitor o que diz a Carta Constitucional de 1826: «Nenhuma pena passará da pessoa do delinquente. Portanto não haverá em caso algum a confiscação de bens, nem a infâmia do réu se transmitirá aos parentes em qualquer grau que seja». Assim, o Chega demonstra ser um novo partido- não um partido novo- que procura recuperar do baú da História ideias humilhantes da dignidade humana.

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Procurando dar credibilidade ao Chega como partido novo, o presidente do Governo Regional da Madeira comparou André Ventura a Francisco Sá Carneiro. O senhor Miguel Albuquerque parece desconhecer a biografia do fundador mais destacado do seu próprio partido. Sá Carneiro tornou-se conhecido dos Portugueses por ter exigido, em 1972, na então Assembleia Nacional, um inquérito à atuação da PIDE/DGS, afirmando mesmo que muitos dos presos políticos eram inocentes; Sá Carneiro defendeu a implementação de um regime democrático em Portugal. André Ventura tornou-se conhecido dos Portugueses através da sua participação num programa televisivo sobre futebol e defende ideias – contrárias ao regime democrático- que vigoraram pelo mundo há vários séculos. Sá Carneiro foi um homem corajoso, lúcido, que desassossegou os dirigentes da ditadura; a narrativa de André Ventura sossega os portugueses que, nos cafés, tabernas ou no sofá, seguem as peripécias de um jogo de futebol e, durante o intervalo, após insultarem o árbitro, afirmam que os políticos são todos iguais, são ladrões.

A convenção de Évora demonstrou que André Ventura é um líder fraco, incapaz de gerir um simples quiosque. Talvez tenha futuro num certo mundo do futebol.

 

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