22 Janeiro 2021, Sexta-feira
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Decorações de Natal

No início deste mês, fotografias da decoração natalícia dos Paços do Concelho de Setúbal invadiram determinados grupos nas redes sociais, gerando, na sua generalidade, comentários indignados devido aos elevados gastos inerentes numa altura em que vivemos uma crise generalizada, e colocando em causa a legitimidade destas prioridades municipais, sobretudo quando os recursos “são públicos e escassos”, como refere um cidadão.

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Falamos de um Executivo que, em 2003, decidiu avançar para um contrato de reequilíbrio financeiro precisamente por reconhecer a sua rutura e o seu desequilíbrio financeiro estrutural, a terminar, de acordo com o previsto, em 2021. Segundo dados do site da Câmara, na página relativa às dívidas a fornecedores, no 2.º semestre de 2019, foram assumidos compromissos financeiros na ordem de mais de 65.500 milhões de euros, tendo sido pagos pouco mais que 36.500 milhões. E já no 1.º semestre deste ano, os compromissos ficaram-se ligeiramente acima dos 61 milhões de euros, dos quais já foram pagos pouco mais que 18 milhões.

Sabemos que, tal como numa empresa ou numa casa, nem sempre as receitas consegue cobrir as despesas e há que fazer investimentos de forma inteligente mas pergunto-me até que ponto investir em decorações natalícias tão exuberantes num ano tão atípico poderá ser assim classificado… Fonte do gabinete da presidência justificou que este tipo de investimento costuma atrair ao edifício mais de 10 mil pessoas em cada ano, e adiantou inclusive que muitas dessas pessoas se terão deslocado propositadamente aos Paços do Concelho ou terão vindo de outras regiões do país. Não duvidando da veracidade destas afirmações, pergunto-me se a lógica dos anos passados poderá ser transposta para este ano. Não seria mais inteligente investir em decoração mais singela e direccionar recursos públicos directamente para o comércio, restauração e hotelaria, sectores que, dizem, terão sido os maiores beneficiários deste investimento nos anos transactos? Talvez seja uma gota no oceano mas perante a escassez todas as gotas contam.

E não deixa de ser curioso que na mesma altura em que Setúbal anda na boca do povo devido a esta ostentação, a cidade tenha marcado presença no telejornal da RTP1 precisamente pela pobreza que aí existe. Do outro lado da cidade, na paróquia da Nossa Senhora da Conceição, dinamiza-se estratégias activas de combate à pobreza junto de quem mais precisa. Além da distribuição diária de alimentos secos e refeições quentes a aproximadamente três centenas de pessoas, todos os meses os serviços paroquiais apoiam, de formas diversas, cerca de 750 mais. Ali, pela mão do padre Constantino Alves, conseguiu-se inclusive criar uma clínica dentária que, com preços acessíveis aos mais carenciados, prestou assistência a mais de duas mil pessoas, nos últimos cinco anos.
Também a Cáritas Diocesana de Setúbal se movimenta neste cenário de pobreza, tendo registado um aumento das pessoas em situação de sem-abrigo na cidade, na ordem dos 150%, além de procurar garantir alimentação a muitos cidadãos que têm um tecto mas cujas dificuldades económicas, agudizadas pela pandemia, não lhes permite fazer face às despesas mais básicas.

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Quanto gastarão estas entidades e estas pessoas nas decorações de Natal?

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