4 Março 2021, Quinta-feira
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Henrique Freire e a profecia do Convento de Jesus

Corria 1864 quando Henrique Freire (1842-1908) fez imprimir em Lisboa a narrativa “A profecia ou a edificação do Convento de Jesus”. O subtítulo informava ser uma “tentativa histórica setubalense”, dando a entender estar o leitor perante uma reconstrução do passado, forma tão ao gosto da época romântica, como a praticou Alexandre Herculano ao eleger o romance histórico, em ambiente preferentemente medieval, para revelar a identidade de Portugal. Henrique Freire segue-lhe o rasto, em epígrafe na abertura de cada um dos onze capítulos, a partir das histórias contadas em “Lendas e Narrativas”, de que se destaca a intitulada “Mestre Gil”, cuja acção ocorre maioritariamente em Setúbal, sendo Garcia de Resende o outro autor a que recorre, cuja “Crónica de D. João II” lhe serve como fonte de informação, e que, com o rei que cronicou, chega a ser também personagem desta história.

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Pelo texto introdutório, “Duas palavras”, sabe-se que a narrativa começara a ser publicada num “jornal literário de Lisboa”, entretanto suspenso, depois continuada no “Correio de Setúbal”, também interrompido. A edição em livro, dedicado ao pai, colmatava essas duas quebras do ritmo de publicação. Contudo, apesar do peso das fontes e da trama histórica, Freire avisava não passar o texto de um “ensaio de um rapaz de 16 anos”, desculpa antecipada por qualquer fragilidade…

A história toma como assunto a construção do Convento de Jesus, anunciada por um “venerável barbadinho italiano”, que sermoneou no então Rossio dos Anjos: “Vedes vós aquele pedaço de terra inculta? Pois adverti que ainda há de ser um paraíso de Deus e fecundo jardim de plantas e de frutos de virtudes e glorioso em santos frutos. Ali hão de viver criaturas cujas obras eminentes transformarão aquele lugar humilde em um céu admirável.” A sequência dos acontecimentos é previsível – Justa Rodrigues Pereira pedirá o apoio régio para construir um convento traçado por Boitaca e a primeira pedra será lançada, em festiva cerimónia, por D. João II.

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Paralelamente, uma história de amor destaca a acção joanina contra a nobreza, invocando episódios de exercício da justiça real sobre os fidalgos (como Pedro de Ataíde ou o duque de Viseu) e figuras do clero (como D. Diogo, bispo de Évora), ao mesmo tempo que uma personagem como Álvaro de Ataíde (que surge no início e no final da obra) serve para relatar a experiência dos que tiveram de exilar-se para fugirem à justiça régia.

O espaço medieval da então vila sadina é sempre caracterizado em comparação com a contemporaneidade de Henrique Freire – daí que haja ocasião para louvar a chegada do comboio ou a iluminação a gaz, que estava para breve. Mas, preocupação máxima, para lá da acção narrativa e do desenvolvimento que era sentido na cidade, Freire foca-se na preservação do património, tal como foi propósito da geração de Herculano e Garrett – há diversos momentos em que o desrespeito pela memória (tomando o exemplo da falta de reconhecimento a Bocage, haja em vista que o monumento ao poeta é posterior, de 1871), a falta de conservação dos bens culturais e o uso do camartelo são criticados, desejando que, no futuro, “a mão destruidora do vândalo desta época não se lembre de fazer do seu recinto uma praça de touros” (como acontecera no Convento de S. João duas décadas antes). A concluir, um desejo: “Que inteiro ou destruído, esse templo conserve sempre vestígios do antigo poder deste reino; é uma página de pedra do livro das nossas tradições.” Bela metáfora para o Convento de Jesus!…

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