Carta de quem tem a mãe na Casa do Professor: “Aquelas vidas estão por um fio”

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Leitora, que tem a mãe na Casa do Professor, de Setúbal, escreve carta aberta às entidades competentes

 

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A inoperância, a desresponsabilização e as vidas “por um fio”

A minha mãe, assim como a de tantas outras pessoas, e também pais, avôs/avós, assim como outros familiares, amigo/as, com idades bastante avançadas e várias debilidades, algumas bastante graves, em termos de saúde, aguardam, na sua “má sorte”, na Casa do Professor, em Setúbal, que alguma entidade pública responsável possa, talvez, recordar que são seres humanos dignos e que lhes espreita tão de perto o risco de vida. E a morte. Mas em vão.

Dia 23 de Março, a direcção nacional da Associação de Solidariedade Social dos Professores (ASSP), entidade responsável por este lar, enviou um email aos familiares, informando que a mesma se encontrava em isolamento, uma vez que um dos residentes, de 96 anos, tinha sido internado no Hospital de S. Bernardo, no passado dia 20, com um quadro suspeito, tendo sido confirmado ser portador do novo coronavírus no dia 22. Tinham tido conhecimento, igualmente, de que uma médica e três enfermeiras, que trabalham nesta residência, se encontravam em isolamento profiláctico. A ordem de isolamento emanara da Autoridade de Saúde Local de Setúbal, que seria, a partir de agora, a entidade a coordenar os respectivos procedimentos nos cuidados de saúde.

Antes desta situação, a ASSP tinha já aprovado e posto em prática um plano de contingência, atempadamente comunicado aos familiares, de acordo com o qual não seriam autorizadas visitas e apenas funcionários poderiam entrar e sair da residência.

No entanto, alguns familiares já tinham conhecimento da situação através de uma publicação do passado dia 22, do jornal Semmais Digital, e a notícia foi também brevemente referenciada por dois canais de televisão, no dia 23.

Ao contactar com os utentes do lar, os seus familiares ficaram a saber que, de acordo com as directivas da Autoridade de Saúde Local de Setúbal, os utentes não serão submetidos a quaisquer testes, a não ser que tenham sintomas – mesmo sendo um dos mais preocupantes grupos de risco, como é do conhecimento de todos, e amplamente divulgado e reforçado pela Senhora Diretora-Geral de Saúde, pela senhora ministra da Saúde e até pelo Sr. primeiro ministro e sr. Presidente da República. Aliás, é esta a política de acção governativa que, infelizmente, vai contra todos os pedidos, conselhos, apelos e provas científicas, de todos os especialistas e da Medicina, cuja principal preocupação é prevenir os focos de infecção do novo Corona vírus, controlá-los, tratar e salvar vidas – a de testar em “massa”; ou a dos “TTT: testar, testar, testar”.

Temos exemplos a aplaudir, e a seguir, em lares de outras regiões do país, nos quais responsáveis pelas respectivas direcções, juntas de freguesia, presidentes de câmara e até alguns meios de comunicação social, reforçam repetida, regular e incansavelmente, a necessidade de proteger e salvar a vida dos seus utentes, principalmente através da realização de testes em contextos onde há focos de infecção – fazem-no junto das autoridades de Saúde, do Governo. Censuremos, no entanto, e com toda a veemência, a inoperância e desresponsabilização destes órgãos públicos e entidades, no caso desta residência, aqui em Setúbal, a começar pela sua direcção nacional da ASSP (atenção: não a directora técnica deste lar, incansável na sua dedicação e preocupação com os utentes).

Onde está, então, esse empenho por parte da direcção nacional da ASSP? E da respectiva Junta de Freguesia, a de S. Sebastião? E a Sra. presidente da Câmara, que não se manifesta? Onde está a comunicação social a acompanhar de perto, como é sua função? Sem falar da Direcção-Geral de Saúde, Ministério da Saúde e Autoridade de Saúde Local de Setúbal, que deverão ser responsabilizados pelo abandono destas “vidas por um fio”.

Maria Santos

 

Nota de redacção: Pela sua parte, O SETUBALENSE tem feito o que lhe compete. Informar com rigor e sem alarmismo. Recordamos que a informação correcta sobre a situação da Casa do Professor – de que o idoso de 96 anos foi confirmado como infectado e que uma médica e três enfermeiras ficaram em isolamento profiláctico – foi noticia publicada por este jornal, na edição de terça-feira, dia 24.

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