Bispo de Setúbal defende estratégia nacional para acabar com bairros degradados

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Bispo de Setúbal, D. José Ornelas Carvalho

O bispo de Setúbal defendeu hoje uma estratégia nacional para acabar com os bairros degradados sem condições de vida para os seus habitantes e advertiu que a miséria e a injustiça geram focos de instabilidade para toda a sociedade.

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“O bairro da Jamaica [no Seixal] é uma vergonha, mas é apenas um exemplo, porque, na Península de Setúbal e pelo país fora, há muitos outros do mesmo género. É uma situação de vergonha porque não corresponde ao ‘standard’ que este país quer ser e que proclama querer ser. Isto contradiz o nosso ideal de sociedade – penso que sobre isso todos estamos mais ou menos de acordo”, disse hoje à agência Lusa o bispo de Setúbal, D. José Ornelas.

“Fala-se de novo plano europeu, inclusivamente para os países do sul da Europa. Sei de alguns projetos que estão a ser feitos no campo da habitação, que são muito importantes se forem levados por diante e potenciados pelos novos meios. Acho que pode ser uma viragem. Não temos de dar um palácio a cada um, mas temos de dar uma casa digna a cada pessoa”, frisou o bispo de Setúbal, convicto de que os responsáveis políticos não irão repetir os erros do passado, que permitiram que muitos bairros sociais se transformassem rapidamente em zonas segregadas.

D. José Ornelas, responsável da Igreja Católica na diocese de Setúbal, que no passado domingo, depois da missa de Pentecostes que assinalou a reabertura dos espaços de culto das celebrações comunitárias, já tinha dito que não se compreendia que em Portugal ainda houvesse tantas pessoas a viver em barracas, defende, por isso, que o país tem de estabelecer prioridades que lhe permitam proporcionar uma habitação condigna a todas as famílias e considera que estas situações, que se arrastam há décadas, já deviam ter sido erradicadas.

“Era tempo de estas coisas terem desaparecido. Mas devem desaparecer com projetos novos. Acho que há projetos [habitacionais] desses que estão por aí. Espero que a pandemia [da covid-19] nos tenha feito tomar uma consciência diferente de tudo isto e da urgência que é dar dignidade às pessoas, porque senão, não só o coronavírus, mas tantos outros vírus – os vírus da violência, da instabilidade, da segregação – vão continuar a disseminar-se na sociedade portuguesa. E isso é o que chamo vergonha”, disse, reiterando a ideia de que é necessário estabelecer prioridades para proporcionar às pessoas condições de vida com um mínimo de dignidade.

“As pessoas não terem dignidade e não terem uma vida minimamente aceitável é um atentado à paz social, a um projeto de vida e de sociedade que se quer justa, que se quer digna. O facto de termos núcleos de pobreza constante e minorias que são segregadas é um incómodo para todos. E não só. Estas pessoas, se não são preparadas, não têm integração social para poderem dar o seu contributo à comunidade, são um peso para a sociedade”, advertiu.

D. José Ornelas lembrou ainda que “os países que têm mais progresso, verdadeiro progresso, são aqueles que desenvolveram não só o progresso económico, mas também um progresso humanista, de acolhimento das pessoas”.

“Acho que o nosso país vai caminhando nesse sentido, mas esta situação [barracas e bairros degradados] não pode permanecer por muito tempo, porque isto vai gerando cada vez mais descontentamento. A injustiça e a miséria vão gerando cada vez mais descontentamento – veja-se o que está a acontecer nos Estados Unidos, um país onde as pessoas são discriminadas – e toda a sociedade fica em causa, porque esse descontentamento faz crescer outras dinâmicas de revolta [das populações]”, concluiu o bispo de Setúbal.

Lusa

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