Viagem pelas madrugadas de faina a bordo da Mãe de Jesus

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Fotografia: ANDRÉ PEREIRA

Casa de Bocage recebe mostra sobre histórias de vida ligadas à pesca

 

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A exposição “O Barulho da Lua”, da jornalista Inês Antunes Malta e do fotógrafo Alex Gaspar está patente na Casa de Bocage, em Setúbal, até 29 de Agosto, com uma viagem pelas madrugadas de faina, a bordo da última embarcação de Setúbal dedicada à pesca da sardinha, “Mãe de Jesus”.

Durante a inauguração da exposição, inspirada na reportagem com o mesmo nome, publicada no jornal O SETUBALENSE em Setembro de 2019, Inês Malta acolheu as palavras de pessoas ligadas à pesca que descrevem um sector a viver dias muito difíceis. “Dizem que, os problemas da pesca em Setúbal são tão actuais hoje, como eram há décadas”.

O desafio para escrever e fotografar “O Barulho da Lua” começou em Maio de 2019, quando, durante uma entrevista ao presidente da União de Freguesias de Setúbal, a propósito da realização da Semana do Mar, o autarca propôs a Inês Malta e Alex Gaspar produzirem uma reportagem, que retratasse as dificuldades pelas quais o sector da pesca passa. Mas, coincidência do destino, a pesquisa havia começado meses antes deste desafio surgir, “com a recolha de testemunhos, apontamentos históricos e notícias”, sobre o contexto socioeconómico da pesca, não só em Setúbal, mas em toda a região, explica Inês Malta.

O tema já interessava muito à jornalista e as palavras do autarca foram o ponto de partida que precisava.

Naquela primeira entrevista, Rui Canas, descreveu que os pescadores “são teimosos porque gostam muito, porque não querem aprender a fazer outras coisas. Conheço muita gente dos seus 40 e tal anos que já saiu para outros trabalhos e depois não gosta e volta para o mar. Porque o mar também tem uma parte que é beleza, o ir ao mar à noite. De Inverno é chato, mas de Verão é agradável, tem momentos agradáveis. O momento da liberdade, momento de estar com a natureza, o momento de em certas alturas não se ouvir nada, ouvir-se aquilo que se chama andar ao barulho da lua, que é nada. São situações a que as pessoas se habituaram a viver. Isto é uma forma de vida, não é uma profissão”. E assim se nomeou “O Barulho da Lua”, pelo silêncio do mar e silêncio em que o sector permanece.

Para percorrer o caminho até à produção final, a dupla contou com os testemunhos de Daniel Ferreira, presidente da cooperativa Setúbal Pesca e de Ricardo Santos, a representar a Sesibal – Cooperativa de Pesca de Sesimbra-Setúbal-Sines.
Testemunhos essenciais para “abordar as lutas do sector” e as marés contras as quais os pescadores de Setúbal navegam todos os dias. Nos quais não podia faltar também a história de Rui Russo, mestre da “Mãe de Jesus”.

Foi precisamente em noite de faina, a bordo da última embarcação de Setúbal dedicada à pesca da sardinha, que Alex Gaspar escutou o barulho da lua e captou o silêncio que envolve estes homens em alto mar.

 

Histórias intemporais a bordo e em terra

 

O silêncio. A solidão. Precariedade. Andar ‘à bolina’ do mercado. “São histórias intemporais, principalmente agora que a Covid-19 voltou a atenção para as dificuldades que alguns sectores passam, quando o seu ritmo de trabalho é afectado por situações imprevisíveis”, aponta Inês Malta.

Durante a reportagem, Rui Russo afirmou mesmo que, olhando para trás, hoje os problemas da pesca são piores. “O preço do peixe não se mantém, está mais barato do que estava em 2002 [data de construção da “Mãe de Jesus”]. Os combustíveis estão mais caros, o pessoal está mais envelhecido e existem cada vez menos estaleiros”.
Uma das soluções para parte destes problemas seria Setúbal ter “uma lota de manhã, para pescado de cerco, com peixe do dia para ser consumido nesse mesmo dia, e uma lota de tarde”. Algo que não tem sido possível fazer devido ao funcionamento da lota de Setúbal ser apenas nocturno, mas continua a ser uma das grandes reivindicações dos pescadores em Setúbal.

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