“A cultura no nosso País não come pargo porque não pode”

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A Mascarenhas-Martins volta daqui a pouco ao Montijo e Levi Martins, co-director da companhia, dá a receita para o futuro do sector

 

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O pargo que deixou de ser “saboreado” logo depois de ter sido servido pela primeira vez “à mesa” do Cinema Teatro Joaquim d’ Almeida, no Montijo, volta hoje e amanhã (21h00), e domingo (16h30), ao cardápio da principal sala de espectáculos do concelho.
Levi Martins, 37 anos, co-director da companhia Mascarenhas-Martins, que assume ainda o papel de encenador e produtor da peça intitulada “Há dois anos que eu não como pargo”, desvenda alguns pormenores sobre a criação que foi estreada no passado dia 12 de Março e travada pela pandemia.

Ao mesmo tempo, deita um olhar sobre o estado actual da cultura e revela que a companhia já tem “no forno” uma nova produção, prevista estrear no arranque do próximo ano.

O que retrata esta peça?
É uma história de vida. Retrata a relação entre três amigos que moram na margem sul do Tejo e que têm empregos precários em Lisboa. Retrata o quotidiano da vida deles e desenrola-se quando, à noite, se encontram em casa, na residência que partilham, e falam do seu dia-a-dia, da precariedade em que vivem.
Um deles escreve umas rimas e começa a mostrá-las aos amigos, que o incentivam a apostar numa carreira musical, no “rap”. Não estamos perante uma comédia pura e dura.

Porquê a escolha de “Há dois anos que eu não como pargo” para intitular esta criação?
É exactamente o título de um dos “raps” que essa personagem escreve. Remete um pouco para a privação das coisas boas. E essa rima fala um pouco sobre isso.

Esta criação obrigou a muito trabalho, desde logo tendo em conta que a duração da peça são duas horas?
Sim. Mas os nossos trabalhos têm sempre um longo período de gestação. Começámos a criar a peça há algum tempo. O texto começou a ser escrito por volta de 2017, pelo Miguel Branco, e os ensaios iniciaram-se em Janeiro de 2018. Depois estreámos a peça em Março passado.
Mas obriga a todo um trabalho de produção, de arranjar financiamento, de ensaios e tudo o mais. Implica um grande esforço e muito tempo de trabalho invisível.

Logo após a estreia este espectáculo teve de ser interrompido, face à pandemia. Regressaram com a apresentação da peça em Setúbal e Cacém. Como foi a aceitação do público?
No Festival Internacional de Teatro de Setúbal foi óptima. Tivemos lotação esgotada e fomos muito bem acolhidos. Seguiu-se o Muscarium, em Cacém, no Auditório Municipal António Silva. Também correu muito bem, mas tivemos mais público em Setúbal. E agora regressamos ao Cinema Teatro Joaquim d’ Almeida, onde estreámos a peça.

A cultura no nosso País “não come pargo” porque não quer ou porque não pode?
Porque não pode! As condições em que se trabalha não permitem grandes luxos. Há algumas companhias que parecem ter algumas condições, mas mesmo essas vivem em insegurança.

O que faz mais falta para inverter essa situação?
Fala-se muito de dinheiro, mas acho que o que mais falta faz é valorizar a actividade cultural. A partir daí será possível atrair investimentos. Na prática, faz falta mudar hábitos, promover mais os espectáculos e os nossos governantes podem ter um papel muito importante nesse aspecto, dando o exemplo de como todos nos devemos posicionar a acompanhar e a absorver a cultura. Mas as coisas estão a mudar. A pandemia trouxe à evidência essa necessidade, de uma aposta mais forte.

Pode dizer-se que a companhia Mascarenhas-Martins é residente no Cinema Teatro Joaquim d’ Almeida?
Não trabalhamos aqui permanentemente. Não temos, por enquanto, um espaço só nosso. Fazemos é a maior parte dos espectáculos aqui.
Temos um protocolo de colaboração com a Câmara Municipal do Montijo e também um contrato-programa com a junta de freguesia local, desde 2016-2017, o que tem resultado numa boa relação. Claro que podemos ir mais longe. Tenho a certeza de que a Câmara Municipal também gostará de ir mais longe, como nós, e apostar no crescimento da companhia.

Em termos futuros, depois deste pargo, já estão a cozinhar alguma outra criação?
Temos outra criação que esperamos estrear no início de 2021, embora não eliminemos a hipótese de continuarmos a apresentar este pargo.
O novo projecto tem texto e encenação de Maria Mascarenhas. Será mais uma reflexão sobre a sociedade actual.

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