Mestres do Sado afirmam que a pesca já não é o que era

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Fernando, Leonel e Carlos são rostos da actividade piscatória em Setúbal. Em fases diferentes da profissão, têm em comum a paixão pelo rio

Setúbal. Por muitos reconhecida cidade ligada ao peixe, à pesca e aos pescadores. Reconhecida pela sua abundância em sardinha, salmonete ou carapau e, sobretudo, pelo choco frito. A acompanhar a cidade encontra-se o rio Sado. Ao longo da sua foz está bem vincada a actividade piscatória que, no Porto de Setúbal, procura abrigo para as embarcações que a esta se dedicam.

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É para onde vai a embarcação “Maria de Jesus”, a última traineira que existe no estuário. O proprietário, Leonel Russo, desde os 10 anos que se dedica à pesca. Hoje, com 75 anos, passa os seus dias a arranjar as redes para os colegas poderem trabalhar. “É um trabalho que tem de ser feito e é muito necessário para um dia de pesca”, confidencia.

Decidiu, desde cedo, a profissão que queria seguir. “A minha mãe era conserveira. Na época era esta a profissão que rendia dinheiro, não havendo outra opção”, diz o pescador. Decidiu, quando se aposentou, emprestar a embarcação ao filho, Rui Russo. “Mostrei o ofício ao meu filho e agora é ele que anda no barco. Decidiu dedicar-se ao mar”, afirma.

Para Leonel Russo, é a discrepância na venda do peixe e as condições que a lota apresenta que têm vindo a prejudicar o ofício. “A pesca está uma vergonha. As pessoas pensam que o peixe está caro e que os pescadores enriquecem, mas não, quem enriquece são os grandes retalhistas”, garante. Segundo o pescador, “a inflação prejudica a profissão. A lota também não ajuda pois é a última lota a abrir. Foi ela que fez acabar as traineiras em Setúbal”.

A trabalhar com Leonel Russo encontra-se Fernando Mendes, companheiro de profissão. Pescador profissional desde 1965, viajou pelo mundo com o colega na embarcação Mãe de Jesus. “Pescámos em sítios como Marrocos e Saara. Apanhávamos peixe bom. A partir de 1975 não parámos de viajar”.

Actualmente, com 69 anos e muito conhecimento, diz fazer “as artes para os outros pescadores”. “De vez em quando ainda gosto de ir à apanha do choco, do polvo e da lula. Não é uma prática difícil”.

Criado numa família de pescadores, considera que existem poucos incentivos para quem quer iniciar o ofício. “Deveria de haver mais incentivos para atrair os mais jovens. Ensinar a pescar, ensinar a ver as marés e, principalmente, o peixe deveria de começar a ser tabulado”.

Por sua vez, para Carlos Gomes, pescador de 45 anos, “as pessoas são levadas para a pesca por necessidade pois os incentivos pouco fazem. A pesca abre a porta a quem precisa”. Foi desta forma que entrou na profissão. “Comecei com o meu pai quando tinha 18 anos, apesar de aos 11 já gostar de ir com ele para o mar”, confidencia.

Entre chocos e linguados, Carlos Gomes apenas gosta de pescar na zona de Tróia, na embarcação Praia Mar. “Gostávamos de arranjar mais algum pescador, mas ninguém quer arriscar”, confidencia. Justifica este problema devido à discrepância entre preços que a lota aplica sobre o peixe. “Devia de existir um valor mínimo para que o valor do peixe se mantivesse”, comenta.

Dragagens dividem opiniões

As dragagens no estuário do Sado, a decorrer no âmbito do projecto de melhoria das acessibilidades marítimas ao porto de Setúbal, dividem a opinião entre os pescadores.

Para o pescador Fernando Mendes “as dragagens são boas para a pesca pois fazem a limpeza no fundo do rio. Existe lá muito lixo que provoca poluição, como pneus, redes velhas e muito plástico, o que prejudica o peixe”. Assim afirma-se a favor das dragagens, por considerar que “estas são benéficas para o peixe pois afundam mais o rio e limpam-no”.

Em contrapartida, o pescador Carlos Gomes afirma-se contra as dragagens do Sado pois considera que estas “não favorecem em nada o rio.” “Aliás, retiram o habitat aos animais, matam as ovas e até mesmo bom peixe pois vai tudo para dentro do barco sem existir uma selecção”.

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