Homem de Neandertal já comia dourada na Arrábida há cem mil anos

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Pesquisas arqueológicas na gruta da Figueira Brava revelam que neandertais tinham grande ligação ao mar

 

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O Parque Natural da Arrábida encerra uma descoberta arqueológica “única em todo o mundo, sobre o modo de vida do Homem de Neandertal, que já teria uma grande ligação ao mar e à pesca”, afirma o professor João Zilhão, investigador do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ) e coordenador da equipa que iniciou esta viagem a um passado com cerca 100 mil anos, na gruta da Figueira Brava situada entre Alpertuche e o Portinho da Arrábida, e apenas agora a concluiu.

Na jazida descoberta neste local foram encontradas cinzas, carvões e outras provas de uma utilização intensiva do fogo, utensílios em quartzo e sílex e restos alimentares tendo marisco e peixe na sua base.

“Embora as comunidades neandertais fossem nómadas, esta gruta encerrou durante 83 a 106 mil anos vestígios sobre períodos sazonais em que a comunidade neandertal da Arrábida ocupou o espaço”, diz João Zilhão em entrevista a O SETUBALENSE.

“E, pelos vestígios encontrados, pode-se considerar que esta comunidade já se dedicava à pesca, alimentando-se de mariscos como a santola e peixes como a dourada. Em terra prevalecia a carne de veado. Por isso podemos dizer que era um grupo bastante ‘gourmet’, se avaliarmos esta dieta no mundo de hoje”.

A presença desta comunidade na serra da Arrábida está comprovada desde a década de 80, quando começaram a ser realizadas pesquisas nesse território. Contudo, apenas na última década esta jazida foi identificada e começou a ser estudada.

“Os trabalhos decorreram entre 2010 e 2013. Mas por cada mês de investigação, são necessários dois a três meses para analisar os vestígios. E, depois, outros tantos para catalogar. Todos estes processos levam anos até às conclusões, que são agora apresentadas”.

A par desta comunidade neandertal, na região haveria ainda mais duas. “Uma no Escoural e outra próxima a Lisboa”.

Neandertais e Sapiens

Para o professor João Zilhão esta é “mais uma prova de que os neandertais tinham cultura e comportamento igual ao do Homo sapiens”.

Aliás à vestígios de arte rupestre e adornos produzidos por comunidades neandertais em outros pontos da península ibérica.

“A tecnologia que utilizavam para a arte da pesca ou para a caça, o modo como se deslocavam e organizavam os seus acampamentos em nada diferem do raciocínio sapiens”. As diferenças que até se assinalam, “são, se quisermos utilizar esse termo, rácicas, com uma fisionomia diferente, assim como temos hoje por todo o mundo, entre povos”.

Características que levam o grupo de investigadores desta investigação a considerarem que a grande maioria dos neandertais terá vivido como os de Figueira Brava.


“Os neandertais também eram Homo sapiens e a miscigenação dos dois levou ao Homem de hoje. As características físicas mais vincadas dos neandertais acabaram por ser absorvidas, do mesmo modo que aconteceu com outras comunidades, inclusive em momentos da nossa história mais recente”.

Até ao século XIX, uma grande parte da população de Lisboa tinha traços semelhantes aos dos povos da áfrica equatorial, devido à presença de escravos em Portugal e à miscigenação entre estes povos e os europeus. “No entanto, em dois séculos, prevaleceram os traços europeus”, explica João Zilhão. Uma absorção natural, devido aos genes dominantes, “idêntica ao que aconteceu com os neandertais”, tendo as suas características desaparecido da fisionomia humana entre 35 a 40 mil anos atrás, “data das últimas jazidas de vestígios encontradas”.

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