Pandemia despe Baixa e atinge de forma diferente os vários sectores do comércio local

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Coração do Montijo deserto. Durante as tardes não há movimentação. Crise acentuou-se

 

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O desconfinamento chegou, mas o cenário pouco ou nada mudou. O comércio local em plena Baixa do Montijo sofre. Por ausência. De pessoas. De vida. A Rua Almirante Cândido dos Reis, vulgarmente conhecida por “Rua Direita”, em pleno pulmão da cidade, mostra-se despida de gente, a contrastar com o Sol cheio que irrompe pelo azul do céu. O alegre do brilho é ofuscado pela tristeza do vazio. O deserto, interrompido a conta-gotas por um ou outro transeunte, até permite absorver ao pormenor o chilrear da passarada, instalada um pouco mais para baixo, nas árvores que decoram a Praça da República.

Ontem, quando o relógio da torre da Igreja Matriz se preparava para fazer soar as 16 badaladas, era este o cenário, desolador, melancólico, que se podia encontrar na zona das lojas. Os efeitos da pandemia fizeram-se sentir e o movimento diminuiu. Houve espaços que já não reabriram, como a pastelaria Mimosa, cuja esplanada costumava ocupar parte da principal artéria do comércio no centro montijense. Um quadro estranho. Cheira a medo, a abandono… e a colapso, económico, subentenda-se.

O comércio local já sofria. Agora sofre mais. Todavia, os efeitos do flagelo pandémico reflectiram-se de forma diferente nos vários sectores de actividade. “Não no caso da restauração, mas tenho muitos colegas que até ficaram surpreendidos por terem melhores vendas. A procura aumentou face ao fecho das grandes superfícies comerciais. E a recente reabertura destas já voltou a fazer-se notar”, diz Cristina Fuste, da Comissão Baixa do Montijo Convida e responsável pela Loja Bambil que veste desde bebés até jovens de 16 anos – primeiro pronto-a-vestir para criança aberto na cidade há mais de seis décadas. A situação actual “não é diferente da que se vive noutros locais”, mas “é grave”. A afluência de clientes “é pouca”. “É a normal em relação ao mesmo período de outros anos”, lamenta. O comércio local já há muito que luta contra outro tipo de vírus, o da diminuição da procura em detrimento das unidades de maior dimensão. A pandemia apenas veio acentuar as dificuldades e a retoma, que é suposta acontecer com o desconfinamento, ainda “não se notou muito”. Quanto à pandemia, vinca: “O nosso dever é não nos queixarmos tanto aos clientes, que precisam de sair satisfeitos. Já andam tristes e desanimados. Há que aproveitar a onda que se gerou de que o comércio local deve ser ajudado. A Baixa é um lugar de afectos, que não se encontram nas grandes superfícies.”

Não há melhoras

Joaquim Filipe Caria, gerente da Casa dos Panos, reabriu portas a 4 de Maio. Vende roupa confeccionada para homem e senhora e artigos a metro. E não esconde desalento.


“Isto dispensa palavras. Está pior. Mesmo com o desconfinamento não se vê ninguém nas ruas. A Baixa não tem nada, um chamariz para atrair pessoas”, aponta. “Passam-se tardes que não aparece um cliente. Hoje [ontem] veio um de manhã. Mas este é um mal geral”, revela, adiantando: “O comércio local não tem melhoras. Isto não é de agora, já se notava a quebra do comércio tradicional. Não é diferente do que era em relação há um ano”.

Joaquim foi empregado e passou a dono do negócio em 1976. Não augura melhores dias. “Já aqui estou há 60 anos. Não vou fechar, mas já penso que qualquer dia saio daqui”, admite, enquanto um jovem recorta a rua por detrás da Igreja apenas como rota de passagem. “A juventude não vem ao comércio tradicional”, já havia deixado escapar, nem a propósito, instantes antes.

Sandra Batista, da Boutique Chic, vende roupa para senhora. Tal como Joaquim, encontra-se à porta do estabelecimento, localizado na “Rua Direita”. A ausência de clientes assim o permite. “O regresso à normalidade está a ser gradual. As pessoas ainda têm receio de sair à rua e de vir experimentar peças”, considera. Mas as tardes já eram assim. “O Montijo funciona muito de manhã. À tarde não se vê ninguém. Já antes era assim”, conta, mas ressalva que a situação “agravou-se”.

Percorrendo a rua em direcção à Praça da República, regista-se algum movimento, mas nas duas farmácias. O vazio estranho provocado pelo fecho da emblemática Mimosa desanima o local. A principal artéria da zona está deserta. Do outro lado, quase em frente, localiza-se a sede da Banda Democrática 2 de Janeiro e o restaurante da associação que passou a ser explorado recentemente por Jefferson Lourenço. “Abrimos há uma semana. A afluência tem sido mínima. Três pessoas por dia. Tem sido mais ‘take away’. Agora está difícil. Este mês as pessoas não têm dinheiro. Investiram a comprar por prevenção e continuam em casa. Melhoras só a partir do próximo mês”, estima. Tinha apenas um cliente a tomar uma imperial e os empregados acabavam de atender um casal que comprou dois gelados.

Movimento fraco

Diferente é o caso do Talho Carnes Sucesso. O negócio é outro e o nome dispensa apresentações. O responsável, Luís Monteiro, lembra que o espaço funcionou “duas semanas à porta fechada”. Depois foi adaptado “com medidas de protecção, como painéis acrílicos”.

No interior, três senhoras, de máscara, decidem o que vão levar. “Os clientes nunca deixaram de cá vir. Têm de comer todos os dias”, reconhece. A Pastelaria Mimosa era vizinha do lado. “Ao não reabrir, isto morreu um bocadinho”, salienta, adiantando que a movimentação na zona “parou, mesmo, às tardes”.

Em frente fica a oficina de calçado, “Pedro, O Sapateiro”. O negócio é assegurado por Paulo Vieira. “Isto está fraco. As pessoas não saem. Ainda há muita gente a trabalhar em casa”, atira aquele que, em plena Baixa, garante a arte de uma profissão em vias de extinção.

Uns metros mais à frente a Galeria Municipal está aberta, com uma fita vermelha à porta. Ao lado a Tabacaria Moderna, conhecida localmente como a papelaria dos jornais, destaca-se pela clientela que entra e sai. Além de publicações, vende jogos da Santa Casa – o Euromilhões e as raspadinhas parece que não param de sair. A pandemia não conseguiu travar a busca pela sorte grande.
Praça da República no horizonte. O Café da Praça e a República do Café mostram movimento nas esplanadas. E os banquitos públicos são ocupados pelos idosos, três juntinhos, em cada um deles. Sem máscara. Sem protecção.

Atravessa-se o local e não muito distante apresenta-se o restaurante Marradas. Aí o efeito da pandemia foi forte. “Tenho agora cerca de 50% dos clientes que tinha antes. Notou-se um aumento. Os últimos dias de Maio foram muito maus”, resume o dono Licínio Gaspar. Por dia servia “120 almoços e 80 jantares”. Agora a média baixou para “50 almoços e 30 jantares”. “Começa a haver menos receio das pessoas, mas ainda é prematuro avaliar”, avança, esperançoso em melhores dias.

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