“Os sócios da União Setubalense continuam a aparecer, bons e ilustres, mas são menos”

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A Banda Filarmónica da União Setubalense sob a regência de Ariovisto José Valério, em 1930

Actividade musical acabou mas a dança continua a riscar o salão encarnado e branco

 

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De encarnado e branco, com a lira ao peito, a Sociedade Musical Recreativa União Setubalense (S.M.R.U.S.) testemunha a história da cidade a partir do centro da Avenida Luísa Todi, desde o início do século XX. O seu mais famoso baile, cujo nome homenageia as cores do estandarte, “Encarnado e Branco”, realiza-se há 96 anos, embora não de forma ininterrupta, e enquanto a dança riscar o salão a União não fecha portas. Quanto aos sócios “continuam a aparecer, bons e ilustres, mas são menos”.

No livro “100 Anos – Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense”, publicado em Dezembro 2002, Alberto Sousa Pereira refere que o final do séculoo XIX e o início do século XX em Setúbal foi marcado por uma intensa vida associativa “nas dezenas de colectividades da cidade”, entre elas a S.M.R.U.S., fundada a 22 de Março de 1899, com uma primeira designação de Sociedade Philarmonica União Setubalense, e sede no bairro do Troino.

A filarmónica da União surgiu no mesmo ano, sob direcção do maestro Ariovisto José Valério. Mas, na década de 20, a introdução do “cinematógrafo e do «foot ball» na cidade”, levaram ao esquecimento das filarmónicas locais, refere-se no mesmo livro.

Em “100 Anos – Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense”, é também destacado um artigo publicado na edição de 24/9/1951 do jornal O Setubalense, que coloca como razão para a dissolução da banda “a falta de trabalho em Setúbal e as suas consequências, tal como a da necessidade de procurar trabalho noutras localidades”. Factores considerados “decisivos para o desânimo e a não comparência dos músicos nos ensaios” e razão pela qual “as duas bandas de música locais tenderiam a desaparecer”.
De facto, esse desaparecimento confirmou-se para a banda da União, que no 74º aniversário da colectividade já não saiu à rua.

Muitos dos seus músicos acabaram por integrar a filarmónica da Sociedade Musical Capricho Setubalense, “que se tornou uma grande parceria da União”. Aliás, segundo Sérgio Gabriel, actual presidente da direcção da Sociedade Musical Capricho Setubalense, “inclusive, vários instrumentos da União foram doados à banda da Capricho”.

 

Renascer no compasso da dança

 

A génese musical da sociedade mudou com a dissolução da sua banda filarmónica na década de 70 e hoje é a dança da Ritmus – Escola de Dança que ocupa o palco e o salão.

Em 1989, a prática da dança desportiva tornou-se a principal actividade da colectividade. E em Março de 2012 o projecto Ritmus chegou com a prática de três vertentes: iniciação, competição, social e, posteriormente, com a vertente grupo através das “All Girls”.

Algumas das distinções alcançadas pelas SMURS com a dança desportiva

A Covid-19 quebrou o ritmo deste ano. Mas, a dedicação dos sócios que não desistem e continuam a fazer “actividades todas as semanas, mantém as portas abertas.
Uma estratégia para sobreviver agora e no futuro, “porque quando a epidemia passar, porque vêm aí tempos difíceis para o associativismo”, afirma José Cardoso, presidente da direcção.

Desde a década de 80, época em que começou a estar ligado à direcção da União Setubalense, José Cardoso viu o número de sócios decrescer significativamente. “Os últimos anos foram especialmente preocupantes. Apesar de haver renovação de gerações, porque há sempre quem queria praticar danças de salão, jogar damas, fazer parte dos nossos convívios, participar nos nossos bailes. A verdade é que são menos pessoas em comparação com os anos dourados do associativismo, vividos na primeira metade do século XX”.

Ainda assim muitas tradições da majestosa União continuam vivas e o baile “Encarnado e Branco”, realizado em homenagem às cores da colectividade, “é uma prova da renovação sempre possível”, ou não fosse a União também conhecida pelas suas matinées e soirés.
O baile foi recuperado depois de alguns anos sem organização. “Era um baile que causava muita agitação entre os sócios, especialmente nas senhoras, porque criavam os seus vestidos com as cores do estandarte da União. Estes iam a concurso e o melhor vencia”.

Concurso do vestido “Encarnado e Branco”, no histórico baile “Encarnado e Branco”, em 1999

Agora a tradição está diferente. Homens e mulheres chegam ao dia do baile com peças de roupa em tom de encarnado e branco, mas de forma mais informal. “Já não temos as criações de chita, que antes levavam meses de empenho e criatividade”, recorda José Cardoso.

De “Encarnado e Branco”; no baile do “Bacalhau”, dedicado aos sócios e suas famílias; “Amor Perfeito”, no elogio às damas mais frequentadoras da União; o dos “Aventais”, que premiava o avental mais original; “Pinha”, “Rosa”, “Rainha” e “Vestido de Chita”. Estes são apenas oito dos 26 bailes temáticos da União. E todos riscaram o seu salão nobre durante décadas.

 

Senhora da Avenida Luísa Todi

“Em Outubro de 1924, a Sociedade União inaugurou a sua sede, onde hoje ainda se encontra, na Avenida Luísa Todi [número 233], apresentou uma exposição e houve um animado baile de «encarnado e branco». Infelizmente, no dia 24 de Novembro do mesmo ano, houve um incêndio nas decorações que ornamentavam o tecto da sala de baile e, no pânico que se seguiu, duas senhoras morreram devido aos ferimentos recebidos”, refere Alberto Sousa Pereira no livro “100 Anos – Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense”, publicado em Dezembro de 2002.

Durante a década de 30 a colectividade foi ainda senhora do Teatro D. Amélia, onde hoje a arquitectura modernista do Fórum Municipal Luísa Todi encabeça a avenida. Mas, em 1956, regressou ao seu número 233, na Avenida.

 

B.I.
Nome: Sociedade Musical Recreativa União Setubalense
Localidade: Setúbal
Data de fundação: 22 de Março de 1899, 121 anos
Principais actividades: Dança desportiva
Actual presidente: José Cardoso

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