Um toque histórico na independência do concelho de Alcochete

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A actual equipa dirigente da Sociedade Imparcial continua a manter acesa a chama da tradição local

O branco marca a libertação. Farda a Banda que nasceu com a restauração do concelho. E hoje ainda é a menina dos olhos da vila

 

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Da exacta origem da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 de Alcochete (SIA) não há registo. Mas os relatos que passaram de boca em boca, sem reservas na memória colectiva, dão conta do seu surgimento há 122 anos, alicerçado na sua filarmónica e umbilicalmente ligado ao dia da restauração do concelho.

Alcochete passara três anos sob administração do município vizinho de Aldeia Galega (Montijo), depois de uma anexação decretada por João Franco. No dia em que o concelho recuperou a independência, o momento foi assinalado em euforia pela população com a Banda no centro das atenções, a vincar com brilhantismo a histórica data e a estrear o Hino da Restauração do Concelho (música de João Baptista Nunes Jr. e letra de Luís Cebola), que segundo alguns terá sido composto na prisão e religiosamente guardado a pensar na chegada do dia da independência. A versão é referida no livro “Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 – Estórias da História”, da autoria de Cíntia Susana Mendes, com chancela da Mar da Palha Associação Cultural, publicado em 2019.

A mesma edição confronta versões sobre a origem da SIA, denominação que terá sido adoptada nesse 15 de Janeiro de 1898 (data que foi igualmente integrada na designação), sucedendo assim à até então existente Sociedade de Recreio Alcochetense, que terá nascido em 1855. E o nome “Imparcial” terá sido escolhido para destacar a pluralidade, a abertura a todos, sobretudo, para que a política ficasse fora da instituição.

O primeiro fardamento da filarmónica foi de cor, semelhante então ao da Marinha, mas o branco impôs-se e passou a ser imagem de marca da Banda, apesar de o cinza (e até o azul) ter chegado a figurar “episodicamente” como indumentária (em época invernal).
Actualmente, a SIA contabiliza 763 sócios pagantes e apresenta uma Banda com cerca de 55 músicos, um Orfeão com 33 elementos e uma Escola de Música que integra 29 aprendizes, além de uma Escola de Teatro.

Artur Organista assumiu a presidência da SIA em Janeiro deste ano e não esconde que o trajecto da instituição tem sido de superação.

“O crescimento da colectividade tem acontecido com muita dificuldade”, resume, recuando até a um período não muito longínquo, o da entrada da troika em Portugal. “Até passar a última crise [económica], sentimos muitas dificuldades para subsistir.” A gestão da colectividade “tem sido a contar os tostões”.  Um cenário que “parecia agora poder aliviar”, mas…

“… com a pandemia tivemos de parar quase todas as actividades”, lamenta, salientando que os tempos de confinamento só permitiram que continuasse a funcionar a Escola de Música. Contudo, de forma diferente, à distância, com os monitores a darem aulas por videoconferência. “Duas vezes por semana a cada miúdo, individualmente”, conta.

Futuro adiado e prémios ganhos

Alguns projectos para o futuro ficaram, para já, comprometidos.

“Pretendemos abrir um bar numas instalações contíguas à sede. O projecto está no papel. Mas agora não há dinheiro para se avançar”, revela Artur Organista. O impacte financeiro provocado pela conjuntura pandémica foi de monta. “Ficou tudo suspenso”, tal como as actuações da Banda “até finais de Outubro”.

A Banda – que um dia ficou apelidada de “a furiosa”, por cá, ou “Banda Blanca”, em Espanha – é a menina dos olhos da instituição e até mesmo da vila, não só por tudo o que representa como também pelos prémios e consequente prestígio que foi conquistando, quer a nível interno quer externo.

A actuação no Altice Arena, num evento promovido pela Caixa Geral de Depósitos, foi uma das mais recentes. Tal como o primeiro prémio arrebatado no Concurso Internacional de Bandas Filarmónicas de Braga. “Já estamos convidados para regressar lá, ao próximo certame, mas ainda é cedo. Temos conseguido uma série de prémios, como em Santa Maria da Feira ou em Vila Franca de Xira. Além disso a nossa Banda tem sempre em agenda concertos no Fórum Cultural de Alcochete e actuações em festividades, procissões, corridas de toiros…”, realça o presidente sobre a filarmónica, que soma triunfos em eventos como os promovidos por EDP, RDP, RTP, de 1984 a 1998, ou em Valencia (Espanha, 2003) e Itália (3.° lugar, 2005), entre muitos outros, além da edição de seis CD e da Medalha de Ouro atribuída pelo Município de Alcochete.

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