Casa Ermelinda Freitas: A bonita história de como Leonor venceu o medo e multiplicou as vinhas por dez

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Leonor Freitas

A empresa, fundada e gerida por mulheres há quatro gerações, tem uma forma diferente de estar, na relação com a região e no compromisso com a comunidade. Com Leonor Freitas, os hectares de vinha passaram de 60 para 500

 

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“A minha infância foi passada entre vinhas”. Não é por acaso que esta é das primeiras frases que Leonor Freitas diz a O SETUBALENSE, aquando de uma visita às instalações da Casa Ermelinda Freitas, em Fernando Pó, empresa que completa o centenário precisamente este ano.

Sem problemas, a pessoa que levou a casa que vendia vinho a granel a dar o salto assume-se como uma “filha da vinha”. E é sem problemas que se pode afirmar que é a principal responsável pelo sucesso daquilo que diz ser uma “média empresa”, mas com inúmeros prémios além-fronteiras.

As primeiras memórias, as de criança, são de momentos “descontraídos a brincar nas vinhas e a acompanhar a família a trabalhar na terra”. Apesar do enorme trabalho, existia “muita alegria e convívio”.

Alegria foi precisamente o sentimento predominante de Leonor Freitas daquilo a que gosta, sem pejo, de chamar de “casa”, por essa mesma familiaridade, não só do sangue que construiu a empresa, como na que existe em torno de todo o projecto Ermelinda Freitas.

O regresso após um quarto de século na função pública

Depois de 25 anos a trabalhar na função pública, o pai quis que estudasse “fora” devido à sua “mente aberta”, e Leonor Freitas é chamada novamente ao mundo rural, de que tanto gosta, para pegar na empresa. E pegou, com todo o sucesso confirmado.

Foi em 1997 que voltou, encontrando algo muito diferente do que há agora no grande complexo de Fernando Pó, que bem se vê a partir das estradas nacionais. “Encontrei 60 hectares de vinha, que agora são 500. Encontro uma adega tradicional. Vendíamos vinho a granel e encontro a minha mãe com muita vontade e dedicação. Embora fosse uma mulher de negócios era sempre o meu pai que dava a cara. Era a figura forte, o que é normal no campo. Mas ela tinha muita intuição para o negócio…”, conta.

Quando chega, encontra um “desafio”: não vender a empresa. Embora desafio, foi algo que nunca considerou. “Sentia que era uma violência contra a família. Era um desafio, mais foi uma decisão fácil de tomar”, frisa.

Difícil no entanto, como em tantos negócios agrícolas, foi “aprender a viver com a instabilidade económica”, devido ao que a meteorologia traz, ou não. “Durante muito tempo, todos os anos eu pensava que não ia conseguir ir com isto para a frente”, confessa.

Nunca parou, nunca deixou de procurar, de querer saber, de “ir a todas as reuniões, mesmo quando era a única mulher”, mesmo quando a empresa ficou marcada pelos rostos e o trabalho de mulher. De Deonilde a Germana, que “muito marcou” Leonor, até Ermelinda Freitas, mãe da actual cara da empresa, e que nome lhe deu.
Mulher com “os olhos postos em cima”

Quarta ‘filha’ de gerações de mulheres de sucesso, não foi por isso que a sua subida foi fácil. “É engraçado porque os homens morreram todos muito cedo na família, portanto foram sendo sempre mulheres e mesmo com essa história toda eu ainda senti dificuldades, mesmo nos anos 2000. Um homem disse-me que não fazia negócios com mulheres”, explica.

“Eu tinha os olhos postos em mim, ainda mais porque eu era a menina que tinha saído de cá, menina da cidade, portanto só podia vir fazer asneira. Eu não podia errar. Agora acho que já tenho alguma capacidade para tal, mas na altura não tinha espaço para isso. Obrigou-me a ser exigente comigo porque me sinta observada e foram preciso conversas comigo a dizer ‘não é por ser mulher que não vais para a frente’. Foi preciso para afirmar-me, para respeitarem-me”, diz com convicção.

Sentimento de casa (quase) estabelecida

“Continuei a vender vinho a granel e houve uma altura em que sinto uma grande necessidade de fazer um vinho que se identificasse connosco. E foi assim que surgiu o Terras do Pó. As coisas começaram a correr bem e comecei a ver que me identificava, que esta era a minha vida”, conta.

A grande mudança, e o sentimento de casa praticamente estabelecida, dá-se em 2002, quando a Casa Ermelinda Freitas deixa cair o negócio do vinho a granel. “Era a nossa base económica e tivemos de lutar quando deixámos de ter, foi preciso apostar em novos produtos”. Daqui surgiu o vinho em box, com “boa relação qualidade/preço”, apesar de “no início não ter sido muito bem visto”. “Quando nós lá colocámos vinho de qualidade as pessoas ficaram surpreendidas”, diz com orgulho.

A partir daqui, não mente a história. São já “mais de mil prémios”, com a necessidade de aumento de postos de trabalho, mais profissionalização e mais inovação. Além disso, Leonor Freitas orgulha-se de ter colocado Fernando Pó no mapa, além de ajudar em muito na economia local.

“Um filho a crescer” e os amigos desconhecidos

Mais uma vez, Leonor Freitas deixa cair a guarda e refere o orgulho e alegria em relação à terra, à vinha, à história familiar: “Esta ligação à terra e à vinha… A primeira vinha que eu plantei foi como ver um filho a crescer. Hoje percebo muito melhor a minha família e o amor que eles tinham a isto. É uma ligação que se cria porque todos os anos é como se a vinha morresse e depois rebenta e vem o fruto. É uma actividade muito bonita”.

Assume, claramente, que o cliente foi um factor diferenciador e que obrigou a casa a modernizar-se, procurar outras soluções. E agradece-lhes. “Só tenho a agradecer tudo isto aos consumidores. Só com eles é que se faz o sucesso da Casa Ermelinda Freitas, não só o meu, como o da equipa. Estou eternamente agradecida e digo que tenho muitos amigos, uns conheço, outros não, mas são os que compram nem que seja um copo de vinho”, refere.

De Deonilde e Germana Freitas ao título de comendador com Leonor

A empresa que viria a resultar na Casa Ermelinda Freitas foi criada em 1920, por Deonilde Freitas, continuada por Germana Freitas e mais tarde por Ermelinda Freitas. Sempre com especial dedicação ao vinho, a morte precoce de Manuel João Freitas fez com que Ermelinda continuasse trabalho com ajuda de Leonor Freitas, que tomou depois a liderança da empresa.

Durante cerca de 80 anos a casa vende vinho a granel, até que em 1997 surge o primeiro vinho da Casa, o Terras de Pó, produzido e engarrafado na Casa Ermelinda Freitas.
Um dos grandes marcos da empresa foi precisamente a atribuição da comenda de Ordem do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial Classe do Mérito Agrícola Comendador, pelo então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.

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